domingo, fevereiro 05, 2006

DESENGANEM-SE OS QUE PENSAM QUE "AQUI DEL GAY" É FÁCIL...

Quando escrevi o "Aqui del Gay..." algumas pessoas parecem tê-lo entendido como uma crítica ao mundo homossexual, mas o que não entenderam foi que se tratava de uma melopeia, de uma lamentação, muitas vezes face à forma como eu próprio reajo ao que me é adverso.
Reacções de desânimo, baixa auto-estima, frustração, revolta, mas também reacções de autenticidade, sinceridade, consciência tranquila, respeito próprio.

Aqui del Gay...

As chalaças, as piadas, as bocas,
A sinceridade, o grito, a revolta,
As palavras loucas,
O desprezo auto-infligido, na volta,
É sintoma de fraquezas, não poucas.

A alegria, a sedução,
A disponibilidade e a prontidão.
A solidão e a coragem,
Colocados na margem.

O medo de magoar alguém,
A perda de outrém.
Choros de desdém,
Por não se ter ninguém.

Conforto, carinho,
Amor e beijinho,
Abraço apertado,
Coração exaltado.

Materialismo,
Coisas banais.
Lirismos,
Riquezas fulcrais.

Leituras, artes,
Brinquedos e devaneios.
Compras em muitas partes,
Encobrem os nossos receios.

domingo, dezembro 11, 2005

COMPLEXO INDUSTRIAL DE SENSAÇÕES

O peso da solidão, a auto-estima baixa,
a carência e o excesso de afectos,
a ninfomania, o amor platónico,
o amor com sexo, o amor sem sexo, o sexo sem amor,
a mágoa, a traição, a lealdade, o isolamento,
a bebedeira social, a resignação,
a alegria, a realização,
a negação, a saudade...
Estados de espírito múltiplos
que podem instalar-se num único ser vivo
e alguns em simultâneo.
Que fazer com eles? Como realçar uns e anular os outros?
Como equilibrá-los para ninguém sofrer?

Era uma vez um amigo meu, muito amigo mesmo!
O meu amigo chama-se Tempo! Nasceu não se sabe onde, vive em todos os lados e inunda de controvérsias e certezas tudo e todos, em determinada altura do seu próprio percurso.
Esse meu amigo sentia tudo e muitas vezes não se dava conta de que sentia, pois não queria ver o quanto tinha errado, o quanto continuava a errar, o quanto tinha magoado e o quanto continuava a magoar, sobretudo a si mesmo.
Esse meu amigo não é, certamente, o único que vive em constante conflito interior, não é certamente o único a ter latentes alguns sentimentos de que não se dá conta.
Certo dia, o Tempo encontrou-se com o Espaço, outro filho da mãe que já viveu do melhor e do pior que a Vida pode dar.
A Vida é a jogadora do Mundo, o Mundo é o planeta em que decorrem as acções e vivem os peões Tempo e Espaço.
Como dizia atrás, certo dia o Tempo encontrou-se com o Espaço e disse-lhe.
- Eh, pá, nem imaginas como tenho andado ultimamente!
- Então, o que se passa? - inquiriu Espaço muito cúmplice e verdadeiramente preocupado.
- É a Vida que ultimamente tem posto à prova toda a minha própria existência! - respondeu Tempo com um certo peso no olhar.
- Sabes como ela é, essa Vida! Capaz do melhor e do pior!
- Pois, eu sei bem Espaço. É precisamente assim que me sinto, com o melhor e o pior das sensações em simultâneo.
- Sabes, Tempo, não és só tu que se sente assim, mas também tens que pensar que se assim não fosse não eras humano. O ser humano sente com intensidade todo o tipo de contrariedades e alegrias.
- Eu sei! - respondeu Tempo - Mas o que eu quero é aprender a viver com elas e seleccioná-las muito bem, porque nem todos elas podem existir umas com as outras.
- Isso é fácil!
- Ai sim, diz-me então Espaço, como é que faço para conseguir!
- Descontrai-te, não esperes demais de ti nem dos outros, aceita-te a ti e aos outros com todas as suas forças e fraquezas e reflecte sempre sobre aquilo que jamais gostarias que alguém te fizesse!
- Vou tentar, juro que vou tentar!...
Não é o que fazemos todos, ou pelo menos os que se preocupam muito para além do seu 'próprio umbigo'?

NATAL...

Mais um Natal e mais um acontecimento inconveniente que me fez sentir dividido.
Desta vez não foi a habitual sensação de ter que prescindir de um ente querido em troca de vários entes queridos, mas a saúde de um deles que me faz balançar.

Porque é que nem na doença as pessoas se tornam mais humildes, tolerantes, e reconhecem que quanto mais fecharem portas mais perdem o contacto com as pessoas que mais amam?

Enfim, que Natal é este que é festejado em nome do Amor mas que se pauta por amargura, mágoa e frustração?