quinta-feira, junho 29, 2006

Uma família de nada que tudo tinha...

> foto daqui.
Nada tinha a família do nada,
Por “de nada” se chamar,
Tinha muito mais do que aquela,
Que de tudo se quer gabar.

Tinha flores, pedras, luzes,
Mágoas, sufocos e cruzes,
Tinha amigos, passeios,
Abraços, de carícias cheios.

Eis que um dia,
A família “de nada”,
Se cruzou na rua, coitada,
Com a gabarolas, vadia.

Humilhada, ofendida,
Maltratada foi e será,
Por quem na sua vida,
Nada faz, nem fará.

Nada faz por bem,
Porque não quer trabalho,
Trabalhe quem não tem,
Notas de Euro em baralho.

Do trabalho,
Que outros suaram,
Penaram.

quarta-feira, junho 28, 2006

QUANDO A MORTE NÃO SIGNIFICA MÁ SORTE


Contrariamente aos arrepios e angústias que a carta/lâmina de Tarot representada inspira a quem consulta um tarólogo e esta se lhes depara, a mesma não auspicia a Morte, pelo menos a morte física a que imediatamente temos a tendência de a associar. O nome da carta não existia sequer nos primeiros baralhos de Tarot, sendo simplesmente designada como Arcano sem Nome. Trata-se da carta 13 do conjunto dos 22 arcanos superiores. Talvez seja por esta razão que o próprio número 13 é visto como um sinal de maus augúrios. A palavra Morte só terá aparecido associada à carta nos novos baralhos com tendências ocultistas da Tarologia.
Contrariamente a toda esta fama negativa, ela simboliza precisamente a mudança, a renovação, enfim, uma “morte” necessária para uma nova etapa da vida.
Didier Derlich explica-nos precisamente esta ideia nas seguintes palavras:

O seu simbolismo, um dos mais ricos do Tarot, exprime a omnipotência da vida. E a carta não contém nenhuma negatividade, desde que compreendamos a importância da mudança e da metamorfose, assim como o papel que elas desempenham nas nossas vidas. A mudança causa quase sempre medo. Sabemos o que perdemos, não sabemos o que ganhamos. Sabemos de onde vimos, não sabemos para onde vamos. (Didier Derlich, Guia Prático do Tarot, Pergaminho, p. 150)

Se pararmos para pensar todos os dias nos deparamos com a morte de alguma coisa, todos os dias experimentamos o fim de algo. É precisamente neste espírito que se enquadram as várias formas da morte, seja ela morte episódica, física ou espiritual. Todos os dias nos deitamos e acordamos para um novo dia cheio de possíveis novos desafios, todos os dias pensamos que o presente consumado pode dar lugar a algo que nos surpreende da melhor ou da pior maneira. Todos os dias terminamos coisas que jamais voltamos a empreender. Todos os dias sentimos esperança de mudar alguma coisa nas nossas vidas, ou seja, ansiamos sempre por alguma forma de “morte”.

Para parafrasear e ajudar(-me) a desfazer o irremediável medo que as pessoas têm da morte propriamente dita, não será de pensar que há tantos vivos que parecem mortos e há tantos mortos que permanecem vivos pelas maravilhosas obras que cá deixaram, ajudando à concretização de verdadeiras transformações na vida e na cultura dos seus tempos?!

Termino esta prelecção sobre a péssima tendência que as pessoas (e) eu têm(os) para, por vezes, negativizar(mos) a(s) vida(s) e a(s) morte(s) socorrendo-me de um pequeno texto que encontrei num livro sobre interpretação de sonhos, que vai de encontro ao que o meu primeiro citado deste artigo preconiza sobre uma carta que da morte simplesmente sugere um cadáver em decomposição.

Sonhar que estamos a morrer: quando sonhamos que somos nós que estamos mortos, trata-se de um sonho de muito bom agoiro, pois significa que vamos indeferir uma etapa não muito satisfatória da nossa vida para empreender outra que será mais alegre e benéfica. Esqueceremos recentes mágoas e dissabores, já que perante nós se abre um futuro cheio de êxitos e ganhos. (Grande Dicionário dos Sonhos, Girassol, p.240).
E viva a “morte”, a renovação, a coragem de mudar para melhor.

segunda-feira, junho 26, 2006

Maniqueísmos...

Em primeiro lugar, peço desculpa pela intermitência com que escrevo alguma coisa para este blog, embora por outro não tenha que pedir desculpa porque nele sou livre, ou não, porque esperam sempre que escreva alguma coisa. Mas também mais vale não escrever do que escrever por escrever, e umas vezes estou inspirado, outras nem por isso.
E já aqui vão vários opostos, que espero fazer de acordo com o título que arranjei para mais este artigo.
«Maniqueísmos» resulta de uma frase de Baltassare Castiglione que extraí do livro Lucrécia Borgia, biografia da autoria de Geneviève Chastenet, que me encontro a ler.
Rezava assim Baltassare Castiglione:
«A querer fazer desaparecer os vícios, fazemos desaparecer as virtudes».
Esta frase aplicada ao contexto do Renascimento Italiano em que no seio da própria Igreja o respeito pelos dogmas não era acompanhado pela tentação da carne, facilmente pode ser trazida para hoje, e aplicada desde que o Homem existe, revelando a propensão da Humanidade para aceitar tudo, para se completar com o que diríamos de bom e de mau, e sobretudo para valorizar umas coisas em detrimento de outras. Também só havendo contrapontos as coisas fazem sentido, porque só assim as podemos arrumar em categorias qualitativas, só assim podemos discernir entre aquilo que consideramos bonito-feio, grandioso-insignificante, saboroso-azedo, alegre-triste, carnal-espiritual, frontal-hipócrita.
O que seria do bem se não houvesse mal, do criterioso se não houvesse o negligente, do fantástico se não houvesse o factual?
De mim se não existisses tu? De ti, se não estivesse aqui?
De nós se não existissem eles?
Do futuro, se não houvesse um passado?
Da Lucrécia Bórgia, se não houvesse historiadores de tantas épocas que a afamaram e difamaram?
É no oposto que, acredito, muitas vezes nos encontramos a nós próprios, porque é nele que encontramos aquilo que não queremos ou não sabemos ser, mas também muitas vezes aquilo que não somos porque não temos coragem para dar o salto! Que não somos porque somos outra coisa que não aquela...

terça-feira, maio 30, 2006

NEVER SAY NEVER...




















Never Say Never,
If you are alone,
Or if anyone,
Wants to stay together.

Never say never,
If inside of you,
It's always and ever,
Missing a clue.

Never say never,
If you really know,
That I'm here forever,
To keep going with the show.

Never tell me,
"I don't like you",
Because i'm free,
It's true.

Don't lie to me,
Never is my request,
Because I can see,
That you are not the best.

quarta-feira, maio 24, 2006

SOBRANCERIA... DESILUSÃO...


Olhas os outros com desdém,
Esgares sobranceiros,
Não respeitas mais ninguém,
Só doutores e engenheiros.

Mesmo nestes, afinal,
Vês poder, influência, decisão,
Nas famílias "Teixeira e tal",
Encontras afirmação.

Jantares, festas,
Um restaurante ou bar,
Coisas que detestas,
No sossego do teu lar.

Amizade verdadeira,
Que te foi leal,
Enganas sorrateira,
Porque não te traz bem nem mal.

Oh sobranceria, desilusão!
Tamanha tu foste,
Pois então.

sábado, maio 13, 2006

MAR






















Ruge os teus lamentos,
Mar azul escuro,
Desfaz-te em tormentos,
Na esperança do futuro.

Outras vezes verdes,
São tuas águas amenas,
Por vezes cinza,
A lembrar minhas penas.

Também tuas ondas espumas,
Como se de raiva acometido,
Águas que costumas,
Trazer no sueste prometido.

Lavas mil almas,
Corações quebrados,
Pessoas calmas,
Heróis recordados.

Foste estradas,
Com mil faixas,
Levaste encravadas,
Nos porões mil caixas.

Trouxeste maravilhas,
Coisas novas de espantar,
Levaste a explorar,
Descobrir tantas milhas.

Recordas poetas,
Lusos zarolhos,
Da desgraça profetas,
De franzidos sobrolhos.

Velhos agoirentos,
Recolhidos na velhice,
Desocupados, sem portentos,
Esquecidos da meninice.

Dás a vida,
A quem dá a morte,
Oh sorte,
Desmentida.

domingo, maio 07, 2006

Dia da Mãe

Maria Antonieta e os filhos,
óleo de Elisabeth Louise Vigée-Le Brun.
Museu do Castelo, Versalhes.
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Optei por este óleo que representa a rainha de França Maria Antonieta com os seus filhos, não porque tenha alguma adoração pela rainha representada, mas porque se adequa bem ao dia que hoje se assinala no nosso país: o Dia da Mãe.
Com defeitos e qualidades como qualquer ser humano, as mães são sempre uma figura de referência pelos piores e melhores motivos nas nossas vidas. Dão-nos a vida, alimentam-nos, amparam-nos, repreendem-nos, muitas delas querem escolher os nossos futuros, muitas não estão para aí viradas.
Umas são matriarcas assumidas, outras submissas, umas demasiado presentes, outras ausentes. Umas felizes pelas escolhas dos filhos, outras felizes por conseguirem escolher as vidas deles, umas frustradas porque não o conseguiram, outras agradecidas porque eles se desenrascaram bem sozinhos, independemente dos rumos que tomaram.
Independentemente das suas condutas enquanto mães, elas são seres humanos, com fraquezas e forças incríveis. São mulheres que já foram crianças, que também são filhas, que querem seguir os modelos que elas próprias receberam ou que se afastam dos mesmos por razões diversas.
São capazes de inspirar em nós os mais controversos sentimentos, mas acima de tudo são, à maneira delas, "as nossas melhores amigas".
Para as mães de todos: Sejam felizes, não se anulem enquanto mulheres e não anulem enquanto mães.

E pronto... já cá cantam 32

de Tom of Finland, «Beach Boys» 1971, in The Comic Collection, n.º 2
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É engraçado como o clichet "estou a ficar velho" que os nossos próximos mais graúdos tanto apregoam em certa medida se aplica muito bem.
Ontem saí um bocadito até mais tarde e fui ver como paravam as modas para os lados de Albufeira e Vilamoura.
Se ficar velho significa não ter pachorra para estar uma data de tempo de pé a ver olhares gulosos a contemplarem a nossa casca e a casca dos nossos acompanhantes, então estou mesmo a ficar velho.Se for para ser mais justo, talvez seja melhor dizer "estou a crescer por dentro, e os meus interesses agora já não são os que tinha há algum tempo atrás" ou talvez ainda melhor "o que hoje pode parecer verdade, amanhã pode não o ser".

terça-feira, maio 02, 2006

MUNDOS...



Entre dois mundos,
Um olhar se espraia,
São Mundos fecundos,
Em que uma lágrima desmaia.

Um sorriso contido,
Rasgado, solto,
Da névoa revolto,
Sério, abatido.

Enquanto choras,
Tu e ele, eles e elas,
Que adoras.

Seguiram suas vidas,
Escolhidas,
Vidas vividas.

sábado, abril 22, 2006

Salpicos na tela...















> Cetáceos, acrílico sobre tela, 2002 (da minha autoria).

Mergulhei nesta tela,
Pensamentos coloridos de esperança.
Pintei baleias, golfinhos, orcas,
Mares de lembrança.

De tempos passados,
Presentes, futuros,
De livros desbravados,
Claros e escuros.

Quentes e frias cores,
Amizades, rancores,
Calores, atracções.

Livres corações,
Almas libertas,
Fantasias descobertas.

quinta-feira, abril 20, 2006

Rabiscos caseiros...


















> Díptico Sem título, da minha autoria.
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Para me entreter,
Rabisco numa tela,
Traços de prazer,
A pastel, não aguarela.

Sentimentos, cores, desejos,
Lembranças de tempos idos,
Acções, eventos, ensejos,
Da alma saídos.

Na cor se esbate o peso,
Da solidão, da alegria,
De mais um dia.

No branco, um beijo,
Um afago, um gracejo,
Da realidade.

terça-feira, abril 18, 2006

Boca do Rio

Muitas vezes levo os meus cães à Boca do Rio, uma pequena praia entre escarpas rochosas que outrora testemunharam quotidianos de civilizações idas, e às quais devemos parte da nossa identidade colectiva.
É um duplo encontro que ocorre sempre que me desloco àquela pequena praia, ou mais concretamente às colinas sobranceiras, onde os caninos correm, cheiram, esgravatam livremente, e onde eu me esqueço momentaneamente dos desafios de uma existência pautada por obrigações e deveres profissionais, convívios, conversas, encontros e desencontros.
Um encontro com a natureza, um encontro com o simples «estar vivo».
Uma felicidade pela simples percepção de que nós somos donos da nossa existência, que fazemos com ela aquilo que queremos, ou pelo menos podemos optar por não fazer aquilo que sabemos que nos pode ameaçar.

sábado, abril 15, 2006

Há peruas e perús... (ou o regresso ao inferno)



> Um residente do Zoo de Lagos, posando para a câmara no dia 2 de Abril de 2006.
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Não há dúvida de que a Páscoa é o prelúdio de uma estação alta cheia de veraneantes histéricos e socio-dependentes que não conseguem estar uma vez no ano apartados do stress diário das terras de origem ou das que os acolheram por motivos profissionais.

Eis que vieram todos por aí abaixo, com o bóbi, o tareco, o piriquito, a avó, a bisavó, a tia-avó ou o sobrinho e a amiga da filha mais nova que ainda não se conseguiu libertar das garras dos pais por ter simplesmente 15 anos.
Tanta gente a falar com pronúncia de "Cascais", a matar saudades dos centros comerciais idênticos àqueles onde ainda há três dias atrás tinham adquirido o novo fato de banho para a rentrée da saison, o pareo com cores brasílicas para se pavonearem pelas marginais ou pelas marinas soalheiras onde o encontrão e o serviço de má qualidade se tornam lugares comuns.
E viva os perús do Zoo de Lagos, e os primatas, e os répteis, e as outras aves, e os mamíferos.
Não, não recebo nenhuma comissão por estar a publicitar este estabelecimento de recreio e de aprendizagem que visito de tempos a tempos.
O Algarve tem tanta coisa bonita, que não as esplanadas a abarrotar, os shopping, as marinas dos tios e das tias.
É caso para dizer: Há peruas e perús.

domingo, abril 02, 2006

Alentejo na minh'alma!


> Foto do Norte-Alentejano em Março
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Provavelmente muitos conhecem aquele fado lamurioso que reza os seguintes versos:

Abalei do Alentejo,
Olhei para trás chorando,
Alentejo na minh'alma,
Tão longe me vais ficando.

Pois bem, nem sempre assim foi, e provavelmente nem sempre assim será.
O que é que nem sempre assim foi, nem sempre assim será? - Pergunta o leitor.
Simples, caro leitor, muito simples!
Nem sempre deixei para trás o meu Alentejo a chorar, e provavelmente nem sempre assim o deixarei.
Claro está que ao dizer "nem sempre", o leitor partirá do princípio que, se nem sempre, algumas vezes, pelo menos, assim foi.
Pois foi, muitas vezes saí do Alentejo chorando, com uma mágoa que parecia não ter fim.
Com um desespero que só parava quando chegava ao meu exílio meridional.
Com os olhos inchados e raiados de sangue que iam aclarando à medida que o tempo passava.
Mas, ainda hoje, decorridos quase 7 anos de uma guerra com batalhas dolorosas, há momentos em que, não obstante me sentir mais duro, mais confiante, mais determinado e instalado na vida, sinto o peso da necessidade constante de não misturar o local de nascimento com o local que escolhi para viver.
Mas batalhas todos nós enfrentamos, muitas vezes batalhas que nós próprios nos impomos. Batalhas que não nos são colocadas por outros, mas que nós próprios inventamos, porque o ódio é tanto, a mágoa é imensa, somos tão problemáticos, e estamos tão "malhadiços" (aculturação linguística), que não sabemos viver de outra forma que não seja apontando o dedo a tudo e a todos, mesmo que às vezes fosse mais racional apontar o dedo a nós próprios.
Enfim, se há os que se deixam espezinhar, há também os que são espezinhados sem tomarem uma atitude passiva, se há os que são justos a apontar o dedo, também há aqueles que apontam o dedo a tudo o que não corresponde às suas crenças e valores, se há os que têm fairplay, há aqueles que só sabem jogar pelas suas regras.
Para quê inventar problemas, para quê viver em constante sobressalto e em constante conflito?
Ninguém é perfeito, mas todos temos a obrigação, o dever de tentar ser felizes, e ser felizes sem estar sempre a culpar os outros pela nossa infelicidade.

AMIZADE?!

Amigo, por favor, vem-me buscar!
Estou triste, perdido, a chorar.
Na estrada, abandonado à sorte.
Com medo, fugindo da morte.

Aí vou eu, querido, buscar-te,
Aí ou em qualquer parte.
Porque te quero bem,
E não te tenho desdém.

Desculpa, que vergonha, cansar-te,
Àquelas horas tardias,
Mas só tu, os outros à parte,
Podias acalmar minhas manias.

Não tens de me agradecer,
Se sabes que foi um prazer,
Correr para te acarinhar,
Para te salvar.

De um mau momento,
Por ti criado,
De um tormento,
Por ti forjado.

Agora que tudo passou,
Estás fortalecido, pacificado,
Esqueces-te de quem eu sou.

Não precisas de mim agora,
Se tens audiências de leitura regular,
Para quê perder uma hora,
Comigo, que só te fiz penar?

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

SONS, CORES, CHEIROS E SABORES...

Estava na altura de começar a dar mais cor aos meus escritos.
Por essa razão, porque também gosto muito de rir, e o espírito positivo também me caracteriza, aqui ficam mais umas passagens da Senhora Sócrates, de Messadié, carregadas de descrições que nos transportam para uma alegre e movimentada área comercial tradicional onde a possibilidade de petiscar e de despojar a carteira dos poucos Euros que por lá existem de forma efémera, fazem de nós aquilo que todos somos, seres mundanos, com prazeres materiais, com olhos cobiçosos, com defeitos, com virtudes, com alegrias, com tristezas, com VIDA, atentos aos sons, cores, cheiros e sabores que nos rodeiam.
A pouca distância ergue-se um edifício muito comprido; (...) é constituído por uma simples galeria colunada (...) [que] dá para umas salas, a maior parte das quais se destina ao comércio. Trata-se da Stoa do Sul (...) onde se podem encontrar, para além de Aristides [o taberneiro, ou se quisermos, o dono de um bar] (...), Caralâmbis, o alfaiate, Talassúmenos, o comerciante de pergaminho, que também exerce as funções de livreiro (...). Também lá se encontra Alexos, o ourives, que faz por encomenda louça de prata ou de ouro, com o retrato do cliente ao centro; Eugénio, o ceramista, que vende determinadas peças decoradas a um preço superior ao que valeriam se fossem de prata; Melésias, o escrivão público, para os apaixonados desprovidos de imaginação, que cobra dez dracmas por uma carta de 20 linhas, e 20 por um epigrama; sabe conceber para a donzela e para o efebo epigramas galantes, que valem ao que os envia a reputação de letrado de bom gosto (...). E Tsimis, o sandaleiro mais célebre e mais rico do mundo grego desde que confeccionou para personagem sandálias ornamentadas de prata e pedras azuis; Sólon, o comerciante de óleo, que também vende vinagre, sal e ervas; Mirónides, o advogado (...).
Aí se encontra também Aixoni, o cabeleireiro, que só penteia na sua loja pessoas de condição modesta, porque as outras o convocam para suas casas, como certas heteras, que mudam de penteado sempre que têm um jantar (...). Aí se encontra o célebre Demis, comerciante de produtos de salga, queijos, azeitonas, sardinhas secas, que também vende frutos secos; Ortodoxos, o farmacêutico, cuja loja tresanda à nafta que manda vir da Palestina por alto preço e com a qual fabrica uma pasta repulsiva com óleo e cravinho, para tratar os reumatismos; mais discretamente, também vende esponjas contraceptivas. E Clázio, que aluga carpideiras para os enterros, e cuja casa é, como seria de esperar, contígua à do boticário. Anásio é mercador de mel do Himeto ou do Licabeto; Aristides, o mercador de vinho (que recomenda a cada pessoa o mais adequado ao respectivo temperamento e às circunstâncias: um Samos encorpado para os encontros galantes, um Quios ligeiro para as refeições alegres), vende vinho à taça, barato, mas também cerveja e hidromel. Juntemos-lhe ainda dois padeiros, três comerciantes de charcutaria e dois comerciantes de frutas.
Finalmente, temos Nicolau e Zopiris, que se encontram exactamente nas duas extremidades das galerias e dedicam um ao outro um ódio sem falhas, porque exercem ambos a mesma profissão: fabricam flautas e liras.
É também na Stoa que se encontram os especialistas de pequenos ofícios, como o depilador com cera, o massagista, o entrançador de grinaldas, o homem que aluga dançarinos e acrobatas, e até o que lança as sortes. Para o final da tarde, as prostitutas e os rapazes passeiam por ali, na esperança de arranjar quem lhes ofereça de jantar e uma moeda. Na esplanada, as pequenas tendas, que abrem de manhã e só fecham caída a noite, vendem pequenos fritos e saladas.
Este excerto, simples, descritivo, enérgico, sintetiza bem os prazeres mundanos da vida. Quase que sinto os cheiros, os pregões, os encontrões das pessoas, quase que tenho vontade de saltar desta cadeira em que me encontro e lançar-me à procura do que mais de parecido, a uma hora destas, há com uma rua com tal oferta de produtos...

domingo, fevereiro 26, 2006

A(S) SENHORA(S) SÓCRATES

Xantipa sabia muito bem por que razão Sócrates a não convidava a entrar nos seus aposentos; era porque não estava só. Era frequente receber pessoas que vinham consultá-lo sobre assuntos da Cidade que preferiam não debater em público; pagavam-lhe por isso e os seus ofícios de conselheiro engordavam o magro estipêndio que ele recebia na sua qualidade de conselheiro do primeiro estratega, Péricles. Mas acontecia os visitantes demorarem-se e passarem lá a noite, e não era difícil adivinhar que as suas conversas assumiriam um carácter mais íntimo. Esses momentos sossegavam Xantipa: ela sabia que Sócrates a não trocaria por outra mulher. Fiel à tradição ateniense, de acordo com a qual a companhia das mulheres amolece os homens, ele preferia estes últimos. Sem paixão, aliás, uma vez que se defendia dela. Xantipa compreendera desde muito cedo que o prazer e o sentimento se repelem mutuamente, e os homens, achava ela, eram tão fiéis aos seus companheiros de cama como às putas dos bordéis.
Gérald Messadié, A Senhora Sócrates, Quetzal Editores, p. 22
Este é um excerto do livro que actualmente me encontro a ler, e que permite, no século de Péricles, vislumbrar o quotidiano e as mentalidades atenienses, focando, de uma forma interessante, o homossexualismo socialmente aceite enraízado no seio de famílias influentes.
A protagonista da história é Xantipa, uma mulher que, contrariamente ao que vulgarmente sucedia na sociedade grega antiga, se manteve solteira, contra sua-vontade e para mal da sua então baixa auto-estima, até aos 24 anos de idade. Dotada de traços rudes e de fraca beleza exterior, mas de fortes convicções interiores, eis que finalmente Xantipa é pretendida pelo filósofo Sócrates, que se dirige a Hélia, mãe da solteirona, para a pedir em casamento.
Casados e instalados numa residência num bairro in da cidade de Atenas, rapidamente Xantipa dá a Sócrates dois filhos homens e, segundo Gérald Messadié, depressa Xantipa sente que o sexo não é para si, valorizando mais o afecto e o respeito conjugais. Enfim, sentia-se realizada como mãe e não se importava de prescindir dos afectos sexuais que para si foram, ao que parece, dolorosos e até chocantes, face à sua "pureza" de idade tardia, pela qual achava que os órgãos genitais masculinos eram pequenos como os que representavam os escultores clássicos.
Eis que, na sua fraca propensão para os apetites do sexo, Xantipa descobre a homossexualidade do seu marido, intervalada com as recepções de trabalho que o ocupavam até altas horas da noite nos seus aposentos privados. Sem se deixar magoar, ferir, Xantipa terá preferido esta situação que considerava devaneio sem importância, a uma situação de romance entre Sócrates e outra mulher, pois via nos casos homossexuais de seu marido simples e inocentes idas a um bordel, das quais não restava mais do que o saciar dos desejos da carne.
Não poderá esta história perfeitamente ser transportada para o presente real, em que tantas "senhora(s) sócrates", acomodadas numa vida de conforto, realizadas por serem mães, silenciadas por crenças naquilo que elas pensam ser os devaneios homossexuais sem importância dos maridos, aceitam de bom grado pactuar com a hipocrisia da sociedade, que aclama a mentira e aponta o dedo aos que, de forma corajosa, enfrentam a sociedade em prol da sua verdadeira natureza?
Há coisas que parecem teimar em não mudar...

sábado, fevereiro 25, 2006

FIM DE NÓS DOIS...

Logicamente não vou por aí,
Porque estás à minha espera,
Fico longe de ti,
Não quero ser quimera.

Sabes que não consigo,
Odiar-te e tão pouco,
Gritar-te feito louco,
A ti a quem persigo.

Espera por mim, não vás,
Estou precisado de ti,
Não, não me deixes em paz.

Vou-me porque sofri,
Demais quando estive a teu lado,
Fico longe de ti.

domingo, fevereiro 19, 2006

Soneto da vida...

Da vida, cheia de eventos,
Belos, tristes, comoventes,
Perfumados, bafientos,
Arrojados, indecentes.

Agradece à vida,
Teres recebido coragem,
A força investida,
De alcançar a outra margem.

A força de querer ser,
De estar ao pé de mim,
De me querer, enfim.

Liberdade para pensar,
Vontade de fazer,
Loucura, sobriedade, amar.

Soneto da solidão

Condição tua, minha, dele e dela,
Realidade não menos bela,
Quando buscada,
E encontrada.

Condição triste,
Se em nós existe,
A mágoa, o medo, a dor,
A perda do amor.

Felizes, contentes, estão,
Os que escolhem estar sós,
Sem dores nem dós.

E quem não está só,
De alguma maneira?
Na expiração derradeira.

domingo, fevereiro 05, 2006

DESENGANEM-SE OS QUE PENSAM QUE "AQUI DEL GAY" É FÁCIL...

Quando escrevi o "Aqui del Gay..." algumas pessoas parecem tê-lo entendido como uma crítica ao mundo homossexual, mas o que não entenderam foi que se tratava de uma melopeia, de uma lamentação, muitas vezes face à forma como eu próprio reajo ao que me é adverso.
Reacções de desânimo, baixa auto-estima, frustração, revolta, mas também reacções de autenticidade, sinceridade, consciência tranquila, respeito próprio.

Aqui del Gay...

As chalaças, as piadas, as bocas,
A sinceridade, o grito, a revolta,
As palavras loucas,
O desprezo auto-infligido, na volta,
É sintoma de fraquezas, não poucas.

A alegria, a sedução,
A disponibilidade e a prontidão.
A solidão e a coragem,
Colocados na margem.

O medo de magoar alguém,
A perda de outrém.
Choros de desdém,
Por não se ter ninguém.

Conforto, carinho,
Amor e beijinho,
Abraço apertado,
Coração exaltado.

Materialismo,
Coisas banais.
Lirismos,
Riquezas fulcrais.

Leituras, artes,
Brinquedos e devaneios.
Compras em muitas partes,
Encobrem os nossos receios.

domingo, dezembro 11, 2005

COMPLEXO INDUSTRIAL DE SENSAÇÕES

O peso da solidão, a auto-estima baixa,
a carência e o excesso de afectos,
a ninfomania, o amor platónico,
o amor com sexo, o amor sem sexo, o sexo sem amor,
a mágoa, a traição, a lealdade, o isolamento,
a bebedeira social, a resignação,
a alegria, a realização,
a negação, a saudade...
Estados de espírito múltiplos
que podem instalar-se num único ser vivo
e alguns em simultâneo.
Que fazer com eles? Como realçar uns e anular os outros?
Como equilibrá-los para ninguém sofrer?

Era uma vez um amigo meu, muito amigo mesmo!
O meu amigo chama-se Tempo! Nasceu não se sabe onde, vive em todos os lados e inunda de controvérsias e certezas tudo e todos, em determinada altura do seu próprio percurso.
Esse meu amigo sentia tudo e muitas vezes não se dava conta de que sentia, pois não queria ver o quanto tinha errado, o quanto continuava a errar, o quanto tinha magoado e o quanto continuava a magoar, sobretudo a si mesmo.
Esse meu amigo não é, certamente, o único que vive em constante conflito interior, não é certamente o único a ter latentes alguns sentimentos de que não se dá conta.
Certo dia, o Tempo encontrou-se com o Espaço, outro filho da mãe que já viveu do melhor e do pior que a Vida pode dar.
A Vida é a jogadora do Mundo, o Mundo é o planeta em que decorrem as acções e vivem os peões Tempo e Espaço.
Como dizia atrás, certo dia o Tempo encontrou-se com o Espaço e disse-lhe.
- Eh, pá, nem imaginas como tenho andado ultimamente!
- Então, o que se passa? - inquiriu Espaço muito cúmplice e verdadeiramente preocupado.
- É a Vida que ultimamente tem posto à prova toda a minha própria existência! - respondeu Tempo com um certo peso no olhar.
- Sabes como ela é, essa Vida! Capaz do melhor e do pior!
- Pois, eu sei bem Espaço. É precisamente assim que me sinto, com o melhor e o pior das sensações em simultâneo.
- Sabes, Tempo, não és só tu que se sente assim, mas também tens que pensar que se assim não fosse não eras humano. O ser humano sente com intensidade todo o tipo de contrariedades e alegrias.
- Eu sei! - respondeu Tempo - Mas o que eu quero é aprender a viver com elas e seleccioná-las muito bem, porque nem todos elas podem existir umas com as outras.
- Isso é fácil!
- Ai sim, diz-me então Espaço, como é que faço para conseguir!
- Descontrai-te, não esperes demais de ti nem dos outros, aceita-te a ti e aos outros com todas as suas forças e fraquezas e reflecte sempre sobre aquilo que jamais gostarias que alguém te fizesse!
- Vou tentar, juro que vou tentar!...
Não é o que fazemos todos, ou pelo menos os que se preocupam muito para além do seu 'próprio umbigo'?

NATAL...

Mais um Natal e mais um acontecimento inconveniente que me fez sentir dividido.
Desta vez não foi a habitual sensação de ter que prescindir de um ente querido em troca de vários entes queridos, mas a saúde de um deles que me faz balançar.

Porque é que nem na doença as pessoas se tornam mais humildes, tolerantes, e reconhecem que quanto mais fecharem portas mais perdem o contacto com as pessoas que mais amam?

Enfim, que Natal é este que é festejado em nome do Amor mas que se pauta por amargura, mágoa e frustração?