quinta-feira, julho 06, 2006

D. Luís I - Subsídios para uma (re)leitura biográfica



> Rei D. Luís I, óleo sobre tela da autoria de Machado, 1871, Palácio Nacional da Ajuda, in GODINHO, Isabel da Silveira (Coord.), Rei D. Luís I - Iconografia, Palácio Nacional da Ajuda, 1990.
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Introdução
Este é um trabalho essencialmente biográfico. Ao nível do senso comum, as biografias são relatos da vida de determinada pessoa, importante por alguma razão. Este método foi muito cultivado em Roma (os chamados retratos), e igualmente durante a Idade Média, sendo fundamentalmente biografias de Santos, pessoas cuja vida era exemplo a seguir, portanto, denominadas hagiografias. Não é, contudo, exclusivamente uma biografia, pois esta vai ser enquadrada num campo mais amplo, de enquadramento espácio-temporal, de cerimoniais e práticas comuns, imagem de uma sociedade com as suas crenças e valores[i].

Irei, de vez em quando, apresentar documentos que transcrevi, alguns deles diplomáticos, bastante privilegiados na época do positivismo, precisamente em Oitocentos, o século da História por excelência, em que houve uma exploração sistemática das fontes, sobretudo ao nível da temática política.

Foram também importantes para as minhas pesquisas alguns documentos literários, utilizados no próprio texto, testemunhos bem realistas do século XIX, apesar de se cair no risco de enveredar por pontos de vista facciosos.

Outro tipo de fontes utilizadas foram algumas memórias, concretamente as de Thomaz Mello Breyner, – quarto conde de Mafra, professor e médico de profissão –, que são um óptimo cruzamento da vida do autor com a sociedade do tempo, e sobretudo com a família real portuguesa, à qual ele esteve muito ligado, sendo companheiro de brincadeiras dos filhos de D. Luís – D. Carlos e D. Afonso. Os seus dois volumes de memórias foram-me mesmo muito úteis para apurar alguns traços psicológicos, costumes e ocupações do rei.

Foi minha estratégia, mais ou menos corrente, o cruzamento e articulação de fontes de diversos tipos, transcritas sempre de acordo com a ortografia do original.

Em suma, com este trabalho pretendo evocar uma época de mudanças, já bastante abordada, mas não do ponto de vista da realeza, que nunca foi tão esquecida como nesse período. Sendo D. Luís considerado como um homem desligado do plano material da governação[ii], num reinado considerado pacífico, mais preocupado em cultivar os seus lazeres, as suas artes (que não eram poucas), delegando os poderes políticos a diversos ministérios, dentro de um rotativismo partidário, é preciso frisar que as inovações realizadas no seu reinado contaram com a aprovação deste monarca. Ele próprio de espírito inovador, – um liberal –, estava consciente da importância e necessidade de modernização do país, tão abalado por sucessivas perturbações durante a primeira metade do século XIX.

A época de D. Luís marca uma ascendente prosperidade e prestígio portugueses, ainda que aparentes. Esse prestígio foi, a nível internacional, assegurado pelo monarca, nas suas viagens pela Europa, movimentando-se com facilidade por entre as diversas casas reais europeias, com as quais tinha, na generalidade, boas relações de amizade. Pela figura simpática e cordial do nosso rei, que se mostrou um grande embaixador de Portugal[iii], este país foi fazendo, pouco a pouco, a sua “reentrada na Europa”, que se revelava como o continente hegemónico em vias de grande desenvolvimento. E tal foi o reconhecimento que D. Luís recebeu, que se viu diversas vezes condecorado por vários soberanos estrangeiros, e não só europeus[iv].

É, portanto, meu objectivo localizar, para além de biografar, um homem na época em que viveu; deixar aqui traçados os momentos mais importantes da sua vida e da sua morte, a sua faceta de homem, de rei e de artista.
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[i] Ferrarotti, Franco, Histoire et Histoires de Vie, la méthode biographique dans les sciences sociales, Méridiens Klincksieck, Paris, 1990, p. 9: (tradução nossa) “As personagens e as suas famílias tornam-se reveladores das situações e das relações sociais, das relações numa cultura dentro dos debates da vida quotidiana”.
[ii] Almeida, Fialho de, Os Gatos, Círculo de Leitores, vol. 1, p. 56: “Neste Carnaval de Braganças é pois V. M. o único que intenta penetrar os umbrais da História sem bagagem – apenas com a sua traduçãozinha do Hamlet, a greve dos chapeleiros, o sr. José Luciano preso por uma corrente ao realejo constitucional onde há vinte e seis anos V. M. mói a sua própria marcha fúnebre. Ah. que pobreza de feitos históricos! que supressão de vícios e manias! que ausência de vultos glorificadores da sua governação [que grande mentira]!”; p. 58: “Ah, que vida monótona tem sido a de V. M. ... jantarinhos de canja magra no quarto, violoncelos quando vão artistas de S. Carlos, e como hors-d’oeuvre, a pouca vergonhazinha extramatrimonial às quintas-feiras!... V. M. carece de sair quanto antes dessa apatia”.
[iii] “Elogio Histórico de El-Rei o Senhor D. Luiz I”, por José Frederico Laranjo, in O Instituto, Imprensa da Universidade, Coimbra, volume XXXVII, 2.ª série, Julho de 1889 a Junho de 1890: p. 285: “Elle, no extrangeiro respeitado e querido dos outros soberanos”; Ver nota 4.
[iv] D. Luís I, Duque do Porto e Rei de Portugal, Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa, 1990, p. 281: “As ordens honoríficas, como forma de público apreço, desenvolveram-se no decorrer do século XVIII, embora a sua origem remonte à Antiguidade. No século XIX constituíam, factor determinante nas relações diplomáticas entre estados, com trocas mútuas de condecorações que estavam sujeitas a regras protocolares precisas. As ordens honoríficas eram frequentemente destinadas a premiar actos de bravura, em tempo de paz ou guerra, mas ganhando naturalmente profusão nos campos de batalha. No período coincidente com o reinado de D. Luís, os cortesãos eram condecorados pela sua fidelidade e competência, aproveitando-se por vezes ocasiões de especial relevo para se atribuírem as condecorações. D. Luís I foi naturalmente detentor do mais alto grau de todas as ordens portuguesas, o grão mestrado. Quanto às estrangeiras, o grande número de condecorações com que este soberano foi agraciado demonstra bem o aumento do prestígio internacional do nosso país, recuperado após décadas de guerras e instabilidade que o tinham desacreditado no contexto das nações”.

quarta-feira, julho 05, 2006

BIOGRAFIAS

> Foto da autoria de Augusto Bobone, tirada em 1860, representando alguns dos filhos de D. Maria II, com destaque para os sentados D.Pedro V e D. Antónia, e para o futuro D. Luís I à esquerda da fotografia, in Isabel da Silveira Godinho (coord.), D. Luís I, Duque do Porto e Rei de Portugal - Catálogo, 2.ª ed., Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda, 1990.
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O meu amor pela biografia (histórica) de personalidades que de alguma forma se destacaram nas sociedades em que viveram vem do meu último ano de faculdade em Coimbra, quando para terminar a Licenciatura me propus fazer a biografia de D. Luís I, antepenúltimo rei português.
As biografias têm o seu quê daquilo que muitos designam pejorativamente de petite histoire, mas são muito mais do que isso. São atractivas porque entram de facto pela vida privada do biografado, à qual, como seres curiosos que somos, não ficamos indiferentes, mas são obras centrípetas ou centrífugas, porque partem sempre de um aspecto geral até chegarem ao particular, ou do particular até chegarem ao geral.
Centrípetas são aquelas biografias que, partindo da história geral de uma determinada conjuntura desembocam numa personalidade definida, cujos traços psicológicos (e até físicos) e acções são intimamente marcados por essa mesma conjuntura. Centrífugas são aquelas que partem de uma pessoa escolhida e acabam por inevitavelmente cair numa maior complexidade conjuntural que permita compreender o porquê de fulano ou sicrano ter agido desta forma e não de outra forma qualquer.
A meu ver todas as biografias têm um quê de centrífugo e de centrípeto, porque se umas vezes parte do particular em direcção ao contextual, logo a seguir partem do contextual em direcção ao particular.
São, a meu ver, formas muito criativas e equilibradas, emotivas e despenalizadoras, cativantes, de escrever História. Criativas e equilibradas porque, de forma engenhosa, conseguem alternar o peso do inevitável e rigoroso discurso historiográfico (económico, social, político, ideológico) com um discurso em que a leveza é pautada pelos pormenores da vida quotidiana dos “retratados”, muitas vezes em situações de autêntica hilaridade ou quase intimidade (digo quase porque nunca se fez biografia de alguém que não saísse da esfera privada ou do anonimato). Emotivas e despenalizadoras porque entre o biógrafo e o biografado se desenvolve uma relação íntima que culmina com quase uma adulação do primeiro em relação ao segundo, independentemente de este se ter destacado por feitos reprováveis. Cativantes porque acredito que, respondendo à curiosidade que caracteriza qualquer ser humano face à esfera privada dos outros seres humanos, as biografias trazem mais leitores para a História.
Este pequeno artigo é o prólogo dos meus próximos artigos, que serão o desdobramento da biografia de D. Luís I, ainda que revista posteriormente, que eu desenvolvi em 1996. Já lá vão precisamente 10 ANOS.

quinta-feira, junho 29, 2006

Uma família de nada que tudo tinha...

> foto daqui.
Nada tinha a família do nada,
Por “de nada” se chamar,
Tinha muito mais do que aquela,
Que de tudo se quer gabar.

Tinha flores, pedras, luzes,
Mágoas, sufocos e cruzes,
Tinha amigos, passeios,
Abraços, de carícias cheios.

Eis que um dia,
A família “de nada”,
Se cruzou na rua, coitada,
Com a gabarolas, vadia.

Humilhada, ofendida,
Maltratada foi e será,
Por quem na sua vida,
Nada faz, nem fará.

Nada faz por bem,
Porque não quer trabalho,
Trabalhe quem não tem,
Notas de Euro em baralho.

Do trabalho,
Que outros suaram,
Penaram.

quarta-feira, junho 28, 2006

QUANDO A MORTE NÃO SIGNIFICA MÁ SORTE


Contrariamente aos arrepios e angústias que a carta/lâmina de Tarot representada inspira a quem consulta um tarólogo e esta se lhes depara, a mesma não auspicia a Morte, pelo menos a morte física a que imediatamente temos a tendência de a associar. O nome da carta não existia sequer nos primeiros baralhos de Tarot, sendo simplesmente designada como Arcano sem Nome. Trata-se da carta 13 do conjunto dos 22 arcanos superiores. Talvez seja por esta razão que o próprio número 13 é visto como um sinal de maus augúrios. A palavra Morte só terá aparecido associada à carta nos novos baralhos com tendências ocultistas da Tarologia.
Contrariamente a toda esta fama negativa, ela simboliza precisamente a mudança, a renovação, enfim, uma “morte” necessária para uma nova etapa da vida.
Didier Derlich explica-nos precisamente esta ideia nas seguintes palavras:

O seu simbolismo, um dos mais ricos do Tarot, exprime a omnipotência da vida. E a carta não contém nenhuma negatividade, desde que compreendamos a importância da mudança e da metamorfose, assim como o papel que elas desempenham nas nossas vidas. A mudança causa quase sempre medo. Sabemos o que perdemos, não sabemos o que ganhamos. Sabemos de onde vimos, não sabemos para onde vamos. (Didier Derlich, Guia Prático do Tarot, Pergaminho, p. 150)

Se pararmos para pensar todos os dias nos deparamos com a morte de alguma coisa, todos os dias experimentamos o fim de algo. É precisamente neste espírito que se enquadram as várias formas da morte, seja ela morte episódica, física ou espiritual. Todos os dias nos deitamos e acordamos para um novo dia cheio de possíveis novos desafios, todos os dias pensamos que o presente consumado pode dar lugar a algo que nos surpreende da melhor ou da pior maneira. Todos os dias terminamos coisas que jamais voltamos a empreender. Todos os dias sentimos esperança de mudar alguma coisa nas nossas vidas, ou seja, ansiamos sempre por alguma forma de “morte”.

Para parafrasear e ajudar(-me) a desfazer o irremediável medo que as pessoas têm da morte propriamente dita, não será de pensar que há tantos vivos que parecem mortos e há tantos mortos que permanecem vivos pelas maravilhosas obras que cá deixaram, ajudando à concretização de verdadeiras transformações na vida e na cultura dos seus tempos?!

Termino esta prelecção sobre a péssima tendência que as pessoas (e) eu têm(os) para, por vezes, negativizar(mos) a(s) vida(s) e a(s) morte(s) socorrendo-me de um pequeno texto que encontrei num livro sobre interpretação de sonhos, que vai de encontro ao que o meu primeiro citado deste artigo preconiza sobre uma carta que da morte simplesmente sugere um cadáver em decomposição.

Sonhar que estamos a morrer: quando sonhamos que somos nós que estamos mortos, trata-se de um sonho de muito bom agoiro, pois significa que vamos indeferir uma etapa não muito satisfatória da nossa vida para empreender outra que será mais alegre e benéfica. Esqueceremos recentes mágoas e dissabores, já que perante nós se abre um futuro cheio de êxitos e ganhos. (Grande Dicionário dos Sonhos, Girassol, p.240).
E viva a “morte”, a renovação, a coragem de mudar para melhor.

segunda-feira, junho 26, 2006

Maniqueísmos...

Em primeiro lugar, peço desculpa pela intermitência com que escrevo alguma coisa para este blog, embora por outro não tenha que pedir desculpa porque nele sou livre, ou não, porque esperam sempre que escreva alguma coisa. Mas também mais vale não escrever do que escrever por escrever, e umas vezes estou inspirado, outras nem por isso.
E já aqui vão vários opostos, que espero fazer de acordo com o título que arranjei para mais este artigo.
«Maniqueísmos» resulta de uma frase de Baltassare Castiglione que extraí do livro Lucrécia Borgia, biografia da autoria de Geneviève Chastenet, que me encontro a ler.
Rezava assim Baltassare Castiglione:
«A querer fazer desaparecer os vícios, fazemos desaparecer as virtudes».
Esta frase aplicada ao contexto do Renascimento Italiano em que no seio da própria Igreja o respeito pelos dogmas não era acompanhado pela tentação da carne, facilmente pode ser trazida para hoje, e aplicada desde que o Homem existe, revelando a propensão da Humanidade para aceitar tudo, para se completar com o que diríamos de bom e de mau, e sobretudo para valorizar umas coisas em detrimento de outras. Também só havendo contrapontos as coisas fazem sentido, porque só assim as podemos arrumar em categorias qualitativas, só assim podemos discernir entre aquilo que consideramos bonito-feio, grandioso-insignificante, saboroso-azedo, alegre-triste, carnal-espiritual, frontal-hipócrita.
O que seria do bem se não houvesse mal, do criterioso se não houvesse o negligente, do fantástico se não houvesse o factual?
De mim se não existisses tu? De ti, se não estivesse aqui?
De nós se não existissem eles?
Do futuro, se não houvesse um passado?
Da Lucrécia Bórgia, se não houvesse historiadores de tantas épocas que a afamaram e difamaram?
É no oposto que, acredito, muitas vezes nos encontramos a nós próprios, porque é nele que encontramos aquilo que não queremos ou não sabemos ser, mas também muitas vezes aquilo que não somos porque não temos coragem para dar o salto! Que não somos porque somos outra coisa que não aquela...

terça-feira, maio 30, 2006

NEVER SAY NEVER...




















Never Say Never,
If you are alone,
Or if anyone,
Wants to stay together.

Never say never,
If inside of you,
It's always and ever,
Missing a clue.

Never say never,
If you really know,
That I'm here forever,
To keep going with the show.

Never tell me,
"I don't like you",
Because i'm free,
It's true.

Don't lie to me,
Never is my request,
Because I can see,
That you are not the best.

quarta-feira, maio 24, 2006

SOBRANCERIA... DESILUSÃO...


Olhas os outros com desdém,
Esgares sobranceiros,
Não respeitas mais ninguém,
Só doutores e engenheiros.

Mesmo nestes, afinal,
Vês poder, influência, decisão,
Nas famílias "Teixeira e tal",
Encontras afirmação.

Jantares, festas,
Um restaurante ou bar,
Coisas que detestas,
No sossego do teu lar.

Amizade verdadeira,
Que te foi leal,
Enganas sorrateira,
Porque não te traz bem nem mal.

Oh sobranceria, desilusão!
Tamanha tu foste,
Pois então.

sábado, maio 13, 2006

MAR






















Ruge os teus lamentos,
Mar azul escuro,
Desfaz-te em tormentos,
Na esperança do futuro.

Outras vezes verdes,
São tuas águas amenas,
Por vezes cinza,
A lembrar minhas penas.

Também tuas ondas espumas,
Como se de raiva acometido,
Águas que costumas,
Trazer no sueste prometido.

Lavas mil almas,
Corações quebrados,
Pessoas calmas,
Heróis recordados.

Foste estradas,
Com mil faixas,
Levaste encravadas,
Nos porões mil caixas.

Trouxeste maravilhas,
Coisas novas de espantar,
Levaste a explorar,
Descobrir tantas milhas.

Recordas poetas,
Lusos zarolhos,
Da desgraça profetas,
De franzidos sobrolhos.

Velhos agoirentos,
Recolhidos na velhice,
Desocupados, sem portentos,
Esquecidos da meninice.

Dás a vida,
A quem dá a morte,
Oh sorte,
Desmentida.

domingo, maio 07, 2006

Dia da Mãe

Maria Antonieta e os filhos,
óleo de Elisabeth Louise Vigée-Le Brun.
Museu do Castelo, Versalhes.
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Optei por este óleo que representa a rainha de França Maria Antonieta com os seus filhos, não porque tenha alguma adoração pela rainha representada, mas porque se adequa bem ao dia que hoje se assinala no nosso país: o Dia da Mãe.
Com defeitos e qualidades como qualquer ser humano, as mães são sempre uma figura de referência pelos piores e melhores motivos nas nossas vidas. Dão-nos a vida, alimentam-nos, amparam-nos, repreendem-nos, muitas delas querem escolher os nossos futuros, muitas não estão para aí viradas.
Umas são matriarcas assumidas, outras submissas, umas demasiado presentes, outras ausentes. Umas felizes pelas escolhas dos filhos, outras felizes por conseguirem escolher as vidas deles, umas frustradas porque não o conseguiram, outras agradecidas porque eles se desenrascaram bem sozinhos, independemente dos rumos que tomaram.
Independentemente das suas condutas enquanto mães, elas são seres humanos, com fraquezas e forças incríveis. São mulheres que já foram crianças, que também são filhas, que querem seguir os modelos que elas próprias receberam ou que se afastam dos mesmos por razões diversas.
São capazes de inspirar em nós os mais controversos sentimentos, mas acima de tudo são, à maneira delas, "as nossas melhores amigas".
Para as mães de todos: Sejam felizes, não se anulem enquanto mulheres e não anulem enquanto mães.

E pronto... já cá cantam 32

de Tom of Finland, «Beach Boys» 1971, in The Comic Collection, n.º 2
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É engraçado como o clichet "estou a ficar velho" que os nossos próximos mais graúdos tanto apregoam em certa medida se aplica muito bem.
Ontem saí um bocadito até mais tarde e fui ver como paravam as modas para os lados de Albufeira e Vilamoura.
Se ficar velho significa não ter pachorra para estar uma data de tempo de pé a ver olhares gulosos a contemplarem a nossa casca e a casca dos nossos acompanhantes, então estou mesmo a ficar velho.Se for para ser mais justo, talvez seja melhor dizer "estou a crescer por dentro, e os meus interesses agora já não são os que tinha há algum tempo atrás" ou talvez ainda melhor "o que hoje pode parecer verdade, amanhã pode não o ser".

terça-feira, maio 02, 2006

MUNDOS...



Entre dois mundos,
Um olhar se espraia,
São Mundos fecundos,
Em que uma lágrima desmaia.

Um sorriso contido,
Rasgado, solto,
Da névoa revolto,
Sério, abatido.

Enquanto choras,
Tu e ele, eles e elas,
Que adoras.

Seguiram suas vidas,
Escolhidas,
Vidas vividas.

sábado, abril 22, 2006

Salpicos na tela...















> Cetáceos, acrílico sobre tela, 2002 (da minha autoria).

Mergulhei nesta tela,
Pensamentos coloridos de esperança.
Pintei baleias, golfinhos, orcas,
Mares de lembrança.

De tempos passados,
Presentes, futuros,
De livros desbravados,
Claros e escuros.

Quentes e frias cores,
Amizades, rancores,
Calores, atracções.

Livres corações,
Almas libertas,
Fantasias descobertas.

quinta-feira, abril 20, 2006

Rabiscos caseiros...


















> Díptico Sem título, da minha autoria.
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Para me entreter,
Rabisco numa tela,
Traços de prazer,
A pastel, não aguarela.

Sentimentos, cores, desejos,
Lembranças de tempos idos,
Acções, eventos, ensejos,
Da alma saídos.

Na cor se esbate o peso,
Da solidão, da alegria,
De mais um dia.

No branco, um beijo,
Um afago, um gracejo,
Da realidade.

terça-feira, abril 18, 2006

Boca do Rio

Muitas vezes levo os meus cães à Boca do Rio, uma pequena praia entre escarpas rochosas que outrora testemunharam quotidianos de civilizações idas, e às quais devemos parte da nossa identidade colectiva.
É um duplo encontro que ocorre sempre que me desloco àquela pequena praia, ou mais concretamente às colinas sobranceiras, onde os caninos correm, cheiram, esgravatam livremente, e onde eu me esqueço momentaneamente dos desafios de uma existência pautada por obrigações e deveres profissionais, convívios, conversas, encontros e desencontros.
Um encontro com a natureza, um encontro com o simples «estar vivo».
Uma felicidade pela simples percepção de que nós somos donos da nossa existência, que fazemos com ela aquilo que queremos, ou pelo menos podemos optar por não fazer aquilo que sabemos que nos pode ameaçar.

sábado, abril 15, 2006

Há peruas e perús... (ou o regresso ao inferno)



> Um residente do Zoo de Lagos, posando para a câmara no dia 2 de Abril de 2006.
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Não há dúvida de que a Páscoa é o prelúdio de uma estação alta cheia de veraneantes histéricos e socio-dependentes que não conseguem estar uma vez no ano apartados do stress diário das terras de origem ou das que os acolheram por motivos profissionais.

Eis que vieram todos por aí abaixo, com o bóbi, o tareco, o piriquito, a avó, a bisavó, a tia-avó ou o sobrinho e a amiga da filha mais nova que ainda não se conseguiu libertar das garras dos pais por ter simplesmente 15 anos.
Tanta gente a falar com pronúncia de "Cascais", a matar saudades dos centros comerciais idênticos àqueles onde ainda há três dias atrás tinham adquirido o novo fato de banho para a rentrée da saison, o pareo com cores brasílicas para se pavonearem pelas marginais ou pelas marinas soalheiras onde o encontrão e o serviço de má qualidade se tornam lugares comuns.
E viva os perús do Zoo de Lagos, e os primatas, e os répteis, e as outras aves, e os mamíferos.
Não, não recebo nenhuma comissão por estar a publicitar este estabelecimento de recreio e de aprendizagem que visito de tempos a tempos.
O Algarve tem tanta coisa bonita, que não as esplanadas a abarrotar, os shopping, as marinas dos tios e das tias.
É caso para dizer: Há peruas e perús.

domingo, abril 02, 2006

Alentejo na minh'alma!


> Foto do Norte-Alentejano em Março
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Provavelmente muitos conhecem aquele fado lamurioso que reza os seguintes versos:

Abalei do Alentejo,
Olhei para trás chorando,
Alentejo na minh'alma,
Tão longe me vais ficando.

Pois bem, nem sempre assim foi, e provavelmente nem sempre assim será.
O que é que nem sempre assim foi, nem sempre assim será? - Pergunta o leitor.
Simples, caro leitor, muito simples!
Nem sempre deixei para trás o meu Alentejo a chorar, e provavelmente nem sempre assim o deixarei.
Claro está que ao dizer "nem sempre", o leitor partirá do princípio que, se nem sempre, algumas vezes, pelo menos, assim foi.
Pois foi, muitas vezes saí do Alentejo chorando, com uma mágoa que parecia não ter fim.
Com um desespero que só parava quando chegava ao meu exílio meridional.
Com os olhos inchados e raiados de sangue que iam aclarando à medida que o tempo passava.
Mas, ainda hoje, decorridos quase 7 anos de uma guerra com batalhas dolorosas, há momentos em que, não obstante me sentir mais duro, mais confiante, mais determinado e instalado na vida, sinto o peso da necessidade constante de não misturar o local de nascimento com o local que escolhi para viver.
Mas batalhas todos nós enfrentamos, muitas vezes batalhas que nós próprios nos impomos. Batalhas que não nos são colocadas por outros, mas que nós próprios inventamos, porque o ódio é tanto, a mágoa é imensa, somos tão problemáticos, e estamos tão "malhadiços" (aculturação linguística), que não sabemos viver de outra forma que não seja apontando o dedo a tudo e a todos, mesmo que às vezes fosse mais racional apontar o dedo a nós próprios.
Enfim, se há os que se deixam espezinhar, há também os que são espezinhados sem tomarem uma atitude passiva, se há os que são justos a apontar o dedo, também há aqueles que apontam o dedo a tudo o que não corresponde às suas crenças e valores, se há os que têm fairplay, há aqueles que só sabem jogar pelas suas regras.
Para quê inventar problemas, para quê viver em constante sobressalto e em constante conflito?
Ninguém é perfeito, mas todos temos a obrigação, o dever de tentar ser felizes, e ser felizes sem estar sempre a culpar os outros pela nossa infelicidade.

AMIZADE?!

Amigo, por favor, vem-me buscar!
Estou triste, perdido, a chorar.
Na estrada, abandonado à sorte.
Com medo, fugindo da morte.

Aí vou eu, querido, buscar-te,
Aí ou em qualquer parte.
Porque te quero bem,
E não te tenho desdém.

Desculpa, que vergonha, cansar-te,
Àquelas horas tardias,
Mas só tu, os outros à parte,
Podias acalmar minhas manias.

Não tens de me agradecer,
Se sabes que foi um prazer,
Correr para te acarinhar,
Para te salvar.

De um mau momento,
Por ti criado,
De um tormento,
Por ti forjado.

Agora que tudo passou,
Estás fortalecido, pacificado,
Esqueces-te de quem eu sou.

Não precisas de mim agora,
Se tens audiências de leitura regular,
Para quê perder uma hora,
Comigo, que só te fiz penar?

segunda-feira, fevereiro 27, 2006

SONS, CORES, CHEIROS E SABORES...

Estava na altura de começar a dar mais cor aos meus escritos.
Por essa razão, porque também gosto muito de rir, e o espírito positivo também me caracteriza, aqui ficam mais umas passagens da Senhora Sócrates, de Messadié, carregadas de descrições que nos transportam para uma alegre e movimentada área comercial tradicional onde a possibilidade de petiscar e de despojar a carteira dos poucos Euros que por lá existem de forma efémera, fazem de nós aquilo que todos somos, seres mundanos, com prazeres materiais, com olhos cobiçosos, com defeitos, com virtudes, com alegrias, com tristezas, com VIDA, atentos aos sons, cores, cheiros e sabores que nos rodeiam.
A pouca distância ergue-se um edifício muito comprido; (...) é constituído por uma simples galeria colunada (...) [que] dá para umas salas, a maior parte das quais se destina ao comércio. Trata-se da Stoa do Sul (...) onde se podem encontrar, para além de Aristides [o taberneiro, ou se quisermos, o dono de um bar] (...), Caralâmbis, o alfaiate, Talassúmenos, o comerciante de pergaminho, que também exerce as funções de livreiro (...). Também lá se encontra Alexos, o ourives, que faz por encomenda louça de prata ou de ouro, com o retrato do cliente ao centro; Eugénio, o ceramista, que vende determinadas peças decoradas a um preço superior ao que valeriam se fossem de prata; Melésias, o escrivão público, para os apaixonados desprovidos de imaginação, que cobra dez dracmas por uma carta de 20 linhas, e 20 por um epigrama; sabe conceber para a donzela e para o efebo epigramas galantes, que valem ao que os envia a reputação de letrado de bom gosto (...). E Tsimis, o sandaleiro mais célebre e mais rico do mundo grego desde que confeccionou para personagem sandálias ornamentadas de prata e pedras azuis; Sólon, o comerciante de óleo, que também vende vinagre, sal e ervas; Mirónides, o advogado (...).
Aí se encontra também Aixoni, o cabeleireiro, que só penteia na sua loja pessoas de condição modesta, porque as outras o convocam para suas casas, como certas heteras, que mudam de penteado sempre que têm um jantar (...). Aí se encontra o célebre Demis, comerciante de produtos de salga, queijos, azeitonas, sardinhas secas, que também vende frutos secos; Ortodoxos, o farmacêutico, cuja loja tresanda à nafta que manda vir da Palestina por alto preço e com a qual fabrica uma pasta repulsiva com óleo e cravinho, para tratar os reumatismos; mais discretamente, também vende esponjas contraceptivas. E Clázio, que aluga carpideiras para os enterros, e cuja casa é, como seria de esperar, contígua à do boticário. Anásio é mercador de mel do Himeto ou do Licabeto; Aristides, o mercador de vinho (que recomenda a cada pessoa o mais adequado ao respectivo temperamento e às circunstâncias: um Samos encorpado para os encontros galantes, um Quios ligeiro para as refeições alegres), vende vinho à taça, barato, mas também cerveja e hidromel. Juntemos-lhe ainda dois padeiros, três comerciantes de charcutaria e dois comerciantes de frutas.
Finalmente, temos Nicolau e Zopiris, que se encontram exactamente nas duas extremidades das galerias e dedicam um ao outro um ódio sem falhas, porque exercem ambos a mesma profissão: fabricam flautas e liras.
É também na Stoa que se encontram os especialistas de pequenos ofícios, como o depilador com cera, o massagista, o entrançador de grinaldas, o homem que aluga dançarinos e acrobatas, e até o que lança as sortes. Para o final da tarde, as prostitutas e os rapazes passeiam por ali, na esperança de arranjar quem lhes ofereça de jantar e uma moeda. Na esplanada, as pequenas tendas, que abrem de manhã e só fecham caída a noite, vendem pequenos fritos e saladas.
Este excerto, simples, descritivo, enérgico, sintetiza bem os prazeres mundanos da vida. Quase que sinto os cheiros, os pregões, os encontrões das pessoas, quase que tenho vontade de saltar desta cadeira em que me encontro e lançar-me à procura do que mais de parecido, a uma hora destas, há com uma rua com tal oferta de produtos...

domingo, fevereiro 26, 2006

A(S) SENHORA(S) SÓCRATES

Xantipa sabia muito bem por que razão Sócrates a não convidava a entrar nos seus aposentos; era porque não estava só. Era frequente receber pessoas que vinham consultá-lo sobre assuntos da Cidade que preferiam não debater em público; pagavam-lhe por isso e os seus ofícios de conselheiro engordavam o magro estipêndio que ele recebia na sua qualidade de conselheiro do primeiro estratega, Péricles. Mas acontecia os visitantes demorarem-se e passarem lá a noite, e não era difícil adivinhar que as suas conversas assumiriam um carácter mais íntimo. Esses momentos sossegavam Xantipa: ela sabia que Sócrates a não trocaria por outra mulher. Fiel à tradição ateniense, de acordo com a qual a companhia das mulheres amolece os homens, ele preferia estes últimos. Sem paixão, aliás, uma vez que se defendia dela. Xantipa compreendera desde muito cedo que o prazer e o sentimento se repelem mutuamente, e os homens, achava ela, eram tão fiéis aos seus companheiros de cama como às putas dos bordéis.
Gérald Messadié, A Senhora Sócrates, Quetzal Editores, p. 22
Este é um excerto do livro que actualmente me encontro a ler, e que permite, no século de Péricles, vislumbrar o quotidiano e as mentalidades atenienses, focando, de uma forma interessante, o homossexualismo socialmente aceite enraízado no seio de famílias influentes.
A protagonista da história é Xantipa, uma mulher que, contrariamente ao que vulgarmente sucedia na sociedade grega antiga, se manteve solteira, contra sua-vontade e para mal da sua então baixa auto-estima, até aos 24 anos de idade. Dotada de traços rudes e de fraca beleza exterior, mas de fortes convicções interiores, eis que finalmente Xantipa é pretendida pelo filósofo Sócrates, que se dirige a Hélia, mãe da solteirona, para a pedir em casamento.
Casados e instalados numa residência num bairro in da cidade de Atenas, rapidamente Xantipa dá a Sócrates dois filhos homens e, segundo Gérald Messadié, depressa Xantipa sente que o sexo não é para si, valorizando mais o afecto e o respeito conjugais. Enfim, sentia-se realizada como mãe e não se importava de prescindir dos afectos sexuais que para si foram, ao que parece, dolorosos e até chocantes, face à sua "pureza" de idade tardia, pela qual achava que os órgãos genitais masculinos eram pequenos como os que representavam os escultores clássicos.
Eis que, na sua fraca propensão para os apetites do sexo, Xantipa descobre a homossexualidade do seu marido, intervalada com as recepções de trabalho que o ocupavam até altas horas da noite nos seus aposentos privados. Sem se deixar magoar, ferir, Xantipa terá preferido esta situação que considerava devaneio sem importância, a uma situação de romance entre Sócrates e outra mulher, pois via nos casos homossexuais de seu marido simples e inocentes idas a um bordel, das quais não restava mais do que o saciar dos desejos da carne.
Não poderá esta história perfeitamente ser transportada para o presente real, em que tantas "senhora(s) sócrates", acomodadas numa vida de conforto, realizadas por serem mães, silenciadas por crenças naquilo que elas pensam ser os devaneios homossexuais sem importância dos maridos, aceitam de bom grado pactuar com a hipocrisia da sociedade, que aclama a mentira e aponta o dedo aos que, de forma corajosa, enfrentam a sociedade em prol da sua verdadeira natureza?
Há coisas que parecem teimar em não mudar...

sábado, fevereiro 25, 2006

FIM DE NÓS DOIS...

Logicamente não vou por aí,
Porque estás à minha espera,
Fico longe de ti,
Não quero ser quimera.

Sabes que não consigo,
Odiar-te e tão pouco,
Gritar-te feito louco,
A ti a quem persigo.

Espera por mim, não vás,
Estou precisado de ti,
Não, não me deixes em paz.

Vou-me porque sofri,
Demais quando estive a teu lado,
Fico longe de ti.