terça-feira, julho 18, 2006

NO HORIZONTE...


> Diáfano Horizonte, foto de Cristina Corradini, in www.chaco.gov.ar/cultura/medios

No horizonte vislumbro desejos,
De um porvir melodioso,
Em que te cubro de beijos,
Num abraço caloroso.

De ternura se enche,
A esperança de escaparmos,
Preenchida,
Na lembrança de ficarmos,
Lado a lado,
Num conforto almejado,
Em que tu aninhas,
Teu rosto em meu peito,
Naquele jeito,
Que adivinhas.

Por estares a mim ligado,
De um modo superior,
A dormir e acordado,
No recanto do fulgor,
Do risco que se abate,
No pecado infantil,
No eterno debate,
De traição varonil.

Ao norte meu olhar,
Se eleva para Ti,
Meu ser a acalentar,
Esse corpo etéreo,
Que por si,
Quebra mistério,
Que por mim,
É beijado,
Que por mim,
Em pecado,
É amado,
Olhado.
Apalpado.
Enlaçado.

Dos regulares amantes,
Não sei que será,
Se de um beijo antes,
Não passará,
Um beijo imaterial,
Feito por intenções,
Ou se de um amor carnal,
Lavrado em acções.
O que vier virá,
Nos meandros do futuro,
Que palavras não há,
Para dizer que te juro,
Estar sempre aqui,
Ou ir para longe.

Não interessa o que vem,
Ou se te aproxima,
Viver cada dia,
Na doce chacina,
De palavras amáveis,
Com que me cobres,
Me descobres,
É meu lema,
Este tema,
De amor.

quinta-feira, julho 13, 2006

Marégrafos


> Foto de Pedro Calheiros, retirada do site www.trekearth.com

Águas revoltas,
Marégrafos atentos,
Niveladas, envoltas,
Em tantos tormentos,
Subindo, descendo,
Pela terra que gravita,
Ao sol e à lua,
Meu ser que medita,
Minha pele nua.

Roçando n’areia,
Vendo silhuetas,
Corpos de sereia,
São estatuetas.
Cheias de ilusão,
Perdidas em buscas,
E em tentação,
Que tu me ofuscas.

Sorriso gentil,
Palavras meigas,
Calor febril,
Enchendo taleigas,
De suor ácido,
Tesão pueril,
Num corpo já flácido,
Já não juvenil.

Dos jovens amantes,
Que mergulham,
Corpos flutuantes,
Se atulham,
De beijos molhados,
Em risos rasgados,
De fortes abraços,
Que borbulham.

Águas oscilantes,
Que marégrafos medem,
Agora como antes,
Em que amores sucedem.
E vós oceanos,
Em brumas envoltos,
Lavam desenganos,
E castigos soltos.

quarta-feira, julho 12, 2006

Liberta... de ti!


> Foto retirada do site www.beachchamber.com

Liberta de ti se afasta,
Minh’alma que voa mais longe,
Nas asas de desejo de um monge,
Como se fora casta.

Não estou aqui, já,
Fui para parte incerta,
Alma aberta,
Contra medos que vá,

Buscar um rosto,
Uma pele, um abraço,
O calor noutro regaço,
Um aroma de mosto.

De vinho que te bebo,
Meu belo e jovem efebo,
Que roubaste minh’alma,
Com muita, muita calma.

Ao outro que a tinha,
Não serei bom,
Tão pouco será minha,
A ira da voz, naquele tom.

Alto, frustrado, desgostoso,
Cheio de raiva, rancoroso,
Que grita de forma louca,
“Desdita não tenho pouca”.

Perdi-te, que faço,
Não vás embora,
Puxo-te o braço,
Minh’alma chora.

Dois culpados somos,
Um só, não é verdade,
Porque ambos fomos,
A bestialidade.

Na cobrança de passados,
Pelos ciúmes sentidos,
Fomos separados,
Antes de ser unidos.

História triste e vã,
Apressada por carências,
De uma manhã,
De anos de ausências.

Em que corações,
Disponíveis tentações,
Riam de mim,
Lágrimas enfim.

Rolando de olhos tristes,
Pesam-me o semblante,
Porque já não existes,
Foste avante.

Nas asas da sorte,
Ícaro alado,
Fugindo da vida, da morte,
Do chão levantado.

terça-feira, julho 11, 2006

Ilhas de Amor


> Kapiti Island Sunset, Photo of Steven Pinker, http://pinker.wjh.harvard.edu

Na jangada da paixão,
Cheguei a uma ilha,
Na última recordação,
De uma milha.
Daquele amor,
Em que rancor,
E saudade,
Originam amizade.

Que floriu,
Onde amor havia
Que resistiu,
Quando tudo morria.

Minha alma sumiu
Raptada por alguém,
Não sei quem,
Não resistiu,
Em desvario,
Embarcou,
Naquele navio,
Que ma levou.

Para novo destino,
Belo, diferente,
Onde do desatino,
Não negligente.

Amor se ergue,
Pungente,
Fremente,
Do icebergue,
Alto que gelou,
Meu coração,
Com tensão,
Desilusão apagou.

Acesa novamente,
A chama da paixão,
Ah quente,
Quente sensação.

De abrir o coração,
Não ter medo,
Ao destino sensaborão,
Nunca cedo,
Não tenho receio,
Do que virá,
Porque na mesma irá,
Acender o seu esteio.

segunda-feira, julho 10, 2006

NAS TUAS MÃOS


> Foto daqui

Nas tuas mãos deposito a fé,
Que outrora me tiraram,
Não sei se é, ou não é,
Aquilo que encontraram.

No rio espraiado,
Meu sentir,
Meu devir,
Meu amado.

Meu cuidado,
Que procuro,
Encantado,
No futuro.

Desejo ver,
Sentir o teu calor,
Sentir os teus lábios,
Aquele tremor.

Dos amantes,
Arrebatados,
Em abraços flagrantes,
Apaixonados.

Amorosos,
Faladores,
Nervosos,
Ansiosos.

Doces culpados,
Olhares cúmplices,
Na penumbra ocultados,
De caminhos dúplices.

Meu encanto,
Desencantado,
Me encontro,
Desesperado.

Por não ser,
Dono de mim,
De ti, enfim,
Do meu coração.

Pois sim,
Na tua mão,
Esta devoção.

(Poema dedicado a todos os desencantados que têm medo de se encantar, mas que precisam disso para ser felizes. Aqui vai uma palavra de esperança).





domingo, julho 09, 2006

VIVER...



> Foto daqui

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Há dias em que nos sentimos plenos,
Só por ouvir o barulho do mar,
Por ver a luz da lua,
Abraçar o ar,
Que nos refresca o corpo,
Sabendo que somos amados,
Sabendo que amamos,
Sabendo que estamos vivos,
Que temos um futuro,
Não interessa qual,
Porque o que interessa,
É cada momento vivido,
O presente absorvente,
Que nos distrai do passado,
Que nos inibe a insegurança,
Face ao que está para vir,
Simplesmente viver, viver, viver…

sexta-feira, julho 07, 2006

D. Luís I - Subsídios para uma (re)leitura biográfica 2



> Imagem daqui, aludindo à marcha das mulheres de Paris sobre Versalhes, onde Maria Antonieta, a culpada de todos os males de Franca, residia com a sua família.

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O Século de D. Luís

O século XIX pode ser considerado, entre outros aspectos, como o século do Liberalismo e da burguesia triunfante.

Do Liberalismo porque a partir da Revolução Francesa (1789), se vão espalhando pela Europa novos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Ideais que não foram os de uma população inteira, mas sim de uma camada social, que tendia a afirmar-se perante a cada vez maior pauperização das camadas baixas da população. Estou a referir-me à burguesia de grandes comerciantes, banqueiros e industriais[i], que nos países mais desenvolvidos detinham os meios de produção, perante os operários assalariados que, face a um grande aumento demográfico vêem as suas condições de vida piorar[ii].

Em Portugal, que só experimentaria um desenvolvimento a partir de meados do século XIX, a situação era bem diferente, pois havendo uma burguesia, esta iria ocupar o lugar da nobreza terratenente, quer laica, quer religiosa, que se viu gradualmente desapropriada das suas terras devido à desamortização, “processo legislativo complexo, que se traduziu no desmantelamento de corporações e de estabelecimentos religiosos e laicos e na incorporação dos seus bens na Fazenda Nacional, nalguns casos, e, em todos, na transferência, em seguida, para o domínio privado, por meio de venda ou remição em hasta pública, dos bens imóveis considerados de mão morta”[iii]. Essa venda dos bens nacionais intensificou-se sobretudo a partir da vitória definitiva, em 1834, do Liberalismo em Portugal, posteriormente questionado pelas teses socialistas e republicanas.

Da burguesia triunfante devido à sua aptidão para o trabalho, nos países em franco desenvolvimento. Ao invés, a nossa burguesia tornou-se, com o tempo, tão ociosa como a nobreza fundiária, era uma nova aristocracia, comprando as terras por ninharias, com sua pouca vocação para o investimento. Esta vai gerar uma burguesia de gabinete, de bacharéis, formados na universidade, com vista ao funcionalismo público, emprego seguro para pessoas que não gostam de arriscar investindo. Antagonicamente, existia toda uma população analfabeta, de pequenos agricultores, frades e artesãos, que, sendo considerados, segundo as novas noções liberais, cidadãos políticos passivos, não votavam pois não podiam pagar. Estava-se num liberalismo, reconhecidamente censitário, a nível europeu, e camuflado ao nível do nosso país, devido à radical, inovadora e efémera Constituição de 1822, que não refutava mas também não consagrava aquele princípio. Por falar em constituição, é de referir que este foi o grande século do constitucionalismo, das legislações feitas em prol de toda a população de um país, reduzindo os poderes dos monarcas, que de delegados de Deus, portanto, acima da lei, passam a governar mediante a lei – e que monarca exemplar foi D. Luís, como respeitador da Constituição Política da Nação Portuguesa[iv]­.

A nossa história constitucional, durante o século de Oitocentos, é bastante rica, e preencheu e deu vida à primeira metade daquele. Em 1822 surgiu, num palco em que se movimentavam elites revolucionárias e contra-revolucionárias, a Constituição de 1822, texto radical promulgado pelo Soberano Congresso Constituinte. Este texto dificilmente se poderia impor num país com forte tradição paternalista monárquica, aliada à grande influência da religião católica. Contudo, não era com um texto que a situação de pobreza de um país devastado pelas invasões napoleónicas e pela tutoria dos aliados ingleses se resolveria. De qualquer modo este impôs-se, sendo jurado por D. João VI, e detestado por D. Carlota Joaquina e D. Miguel, símbolos do absolutismo monárquico português, insatisfeitos com o poder de veto meramente suspensivo, para além do poder simbólico. Mais tarde, em 1826, ano da morte do rei D. João VI, D. Pedro IV, abdicando em nome de sua filha D. Maria da Glória, vai, de forma contemporizadora, outorgar aos portugueses a Carta Constitucional de 1826, numa tentativa de equilibrar a soberania da nação com os poderes do rei, que aumentam até ao nível do veto absoluto, estando reconstituídos parte dos poderes efectivos da realeza, que detendo o poder moderador, estava protegida por uma câmara alta de pares do reino, nomeados pelo rei, para evitar imposições desagradáveis da outra câmara, a dos deputados eleitos.

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[i] Dreyfus, François, O Tempo das Revoluções 1787-1870, Publ. Dom Quixote, Lisboa, 1981, p. 204: “Face a estas classes tradicionais, nasce da revolução económica uma nova classe ligada à poupança, à industrialização, ao desenvolvimento do crédito e ao progresso da instrução. Porque a Revolução Industrial é ainda, no século XIX, o feito de países onde domina o protestantismo”.
[ii] Idem., p. 206: “O êxodo rural e o desenvolvimento da indústria conduzem à formação de um proletariado industrial. A sua condição de vida é miserável. São obrigados a uma jornada de trabalho de catorze a dezasseis horas”; p. 211: “E a esta sujeição do operário vem juntar-se uma vida material muito dificil. Os salários continuam muito baixos até cerca de 1850”.
[iii] Silva, António Martins da, “O Fenómeno Desamortizador e sua Inserção Histórica”, in História de Portugal, dir. de José Mattoso, Círculo de Leitores, 1993, vol. 5, p. 339.
[iv] “O Rei D. Luís e a Sociedade de Geografia de Lisboa”, in. Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, red. e admin. na S. G. L., Lisboa, série 80.ª, n.ºs 7-12, p. 157: “Como Rei, foi liberal, como homem foi bom”.

quinta-feira, julho 06, 2006

D. Luís I - Subsídios para uma (re)leitura biográfica



> Rei D. Luís I, óleo sobre tela da autoria de Machado, 1871, Palácio Nacional da Ajuda, in GODINHO, Isabel da Silveira (Coord.), Rei D. Luís I - Iconografia, Palácio Nacional da Ajuda, 1990.
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Introdução
Este é um trabalho essencialmente biográfico. Ao nível do senso comum, as biografias são relatos da vida de determinada pessoa, importante por alguma razão. Este método foi muito cultivado em Roma (os chamados retratos), e igualmente durante a Idade Média, sendo fundamentalmente biografias de Santos, pessoas cuja vida era exemplo a seguir, portanto, denominadas hagiografias. Não é, contudo, exclusivamente uma biografia, pois esta vai ser enquadrada num campo mais amplo, de enquadramento espácio-temporal, de cerimoniais e práticas comuns, imagem de uma sociedade com as suas crenças e valores[i].

Irei, de vez em quando, apresentar documentos que transcrevi, alguns deles diplomáticos, bastante privilegiados na época do positivismo, precisamente em Oitocentos, o século da História por excelência, em que houve uma exploração sistemática das fontes, sobretudo ao nível da temática política.

Foram também importantes para as minhas pesquisas alguns documentos literários, utilizados no próprio texto, testemunhos bem realistas do século XIX, apesar de se cair no risco de enveredar por pontos de vista facciosos.

Outro tipo de fontes utilizadas foram algumas memórias, concretamente as de Thomaz Mello Breyner, – quarto conde de Mafra, professor e médico de profissão –, que são um óptimo cruzamento da vida do autor com a sociedade do tempo, e sobretudo com a família real portuguesa, à qual ele esteve muito ligado, sendo companheiro de brincadeiras dos filhos de D. Luís – D. Carlos e D. Afonso. Os seus dois volumes de memórias foram-me mesmo muito úteis para apurar alguns traços psicológicos, costumes e ocupações do rei.

Foi minha estratégia, mais ou menos corrente, o cruzamento e articulação de fontes de diversos tipos, transcritas sempre de acordo com a ortografia do original.

Em suma, com este trabalho pretendo evocar uma época de mudanças, já bastante abordada, mas não do ponto de vista da realeza, que nunca foi tão esquecida como nesse período. Sendo D. Luís considerado como um homem desligado do plano material da governação[ii], num reinado considerado pacífico, mais preocupado em cultivar os seus lazeres, as suas artes (que não eram poucas), delegando os poderes políticos a diversos ministérios, dentro de um rotativismo partidário, é preciso frisar que as inovações realizadas no seu reinado contaram com a aprovação deste monarca. Ele próprio de espírito inovador, – um liberal –, estava consciente da importância e necessidade de modernização do país, tão abalado por sucessivas perturbações durante a primeira metade do século XIX.

A época de D. Luís marca uma ascendente prosperidade e prestígio portugueses, ainda que aparentes. Esse prestígio foi, a nível internacional, assegurado pelo monarca, nas suas viagens pela Europa, movimentando-se com facilidade por entre as diversas casas reais europeias, com as quais tinha, na generalidade, boas relações de amizade. Pela figura simpática e cordial do nosso rei, que se mostrou um grande embaixador de Portugal[iii], este país foi fazendo, pouco a pouco, a sua “reentrada na Europa”, que se revelava como o continente hegemónico em vias de grande desenvolvimento. E tal foi o reconhecimento que D. Luís recebeu, que se viu diversas vezes condecorado por vários soberanos estrangeiros, e não só europeus[iv].

É, portanto, meu objectivo localizar, para além de biografar, um homem na época em que viveu; deixar aqui traçados os momentos mais importantes da sua vida e da sua morte, a sua faceta de homem, de rei e de artista.
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[i] Ferrarotti, Franco, Histoire et Histoires de Vie, la méthode biographique dans les sciences sociales, Méridiens Klincksieck, Paris, 1990, p. 9: (tradução nossa) “As personagens e as suas famílias tornam-se reveladores das situações e das relações sociais, das relações numa cultura dentro dos debates da vida quotidiana”.
[ii] Almeida, Fialho de, Os Gatos, Círculo de Leitores, vol. 1, p. 56: “Neste Carnaval de Braganças é pois V. M. o único que intenta penetrar os umbrais da História sem bagagem – apenas com a sua traduçãozinha do Hamlet, a greve dos chapeleiros, o sr. José Luciano preso por uma corrente ao realejo constitucional onde há vinte e seis anos V. M. mói a sua própria marcha fúnebre. Ah. que pobreza de feitos históricos! que supressão de vícios e manias! que ausência de vultos glorificadores da sua governação [que grande mentira]!”; p. 58: “Ah, que vida monótona tem sido a de V. M. ... jantarinhos de canja magra no quarto, violoncelos quando vão artistas de S. Carlos, e como hors-d’oeuvre, a pouca vergonhazinha extramatrimonial às quintas-feiras!... V. M. carece de sair quanto antes dessa apatia”.
[iii] “Elogio Histórico de El-Rei o Senhor D. Luiz I”, por José Frederico Laranjo, in O Instituto, Imprensa da Universidade, Coimbra, volume XXXVII, 2.ª série, Julho de 1889 a Junho de 1890: p. 285: “Elle, no extrangeiro respeitado e querido dos outros soberanos”; Ver nota 4.
[iv] D. Luís I, Duque do Porto e Rei de Portugal, Palácio Nacional da Ajuda, Lisboa, 1990, p. 281: “As ordens honoríficas, como forma de público apreço, desenvolveram-se no decorrer do século XVIII, embora a sua origem remonte à Antiguidade. No século XIX constituíam, factor determinante nas relações diplomáticas entre estados, com trocas mútuas de condecorações que estavam sujeitas a regras protocolares precisas. As ordens honoríficas eram frequentemente destinadas a premiar actos de bravura, em tempo de paz ou guerra, mas ganhando naturalmente profusão nos campos de batalha. No período coincidente com o reinado de D. Luís, os cortesãos eram condecorados pela sua fidelidade e competência, aproveitando-se por vezes ocasiões de especial relevo para se atribuírem as condecorações. D. Luís I foi naturalmente detentor do mais alto grau de todas as ordens portuguesas, o grão mestrado. Quanto às estrangeiras, o grande número de condecorações com que este soberano foi agraciado demonstra bem o aumento do prestígio internacional do nosso país, recuperado após décadas de guerras e instabilidade que o tinham desacreditado no contexto das nações”.

quarta-feira, julho 05, 2006

BIOGRAFIAS

> Foto da autoria de Augusto Bobone, tirada em 1860, representando alguns dos filhos de D. Maria II, com destaque para os sentados D.Pedro V e D. Antónia, e para o futuro D. Luís I à esquerda da fotografia, in Isabel da Silveira Godinho (coord.), D. Luís I, Duque do Porto e Rei de Portugal - Catálogo, 2.ª ed., Lisboa, Palácio Nacional da Ajuda, 1990.
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O meu amor pela biografia (histórica) de personalidades que de alguma forma se destacaram nas sociedades em que viveram vem do meu último ano de faculdade em Coimbra, quando para terminar a Licenciatura me propus fazer a biografia de D. Luís I, antepenúltimo rei português.
As biografias têm o seu quê daquilo que muitos designam pejorativamente de petite histoire, mas são muito mais do que isso. São atractivas porque entram de facto pela vida privada do biografado, à qual, como seres curiosos que somos, não ficamos indiferentes, mas são obras centrípetas ou centrífugas, porque partem sempre de um aspecto geral até chegarem ao particular, ou do particular até chegarem ao geral.
Centrípetas são aquelas biografias que, partindo da história geral de uma determinada conjuntura desembocam numa personalidade definida, cujos traços psicológicos (e até físicos) e acções são intimamente marcados por essa mesma conjuntura. Centrífugas são aquelas que partem de uma pessoa escolhida e acabam por inevitavelmente cair numa maior complexidade conjuntural que permita compreender o porquê de fulano ou sicrano ter agido desta forma e não de outra forma qualquer.
A meu ver todas as biografias têm um quê de centrífugo e de centrípeto, porque se umas vezes parte do particular em direcção ao contextual, logo a seguir partem do contextual em direcção ao particular.
São, a meu ver, formas muito criativas e equilibradas, emotivas e despenalizadoras, cativantes, de escrever História. Criativas e equilibradas porque, de forma engenhosa, conseguem alternar o peso do inevitável e rigoroso discurso historiográfico (económico, social, político, ideológico) com um discurso em que a leveza é pautada pelos pormenores da vida quotidiana dos “retratados”, muitas vezes em situações de autêntica hilaridade ou quase intimidade (digo quase porque nunca se fez biografia de alguém que não saísse da esfera privada ou do anonimato). Emotivas e despenalizadoras porque entre o biógrafo e o biografado se desenvolve uma relação íntima que culmina com quase uma adulação do primeiro em relação ao segundo, independentemente de este se ter destacado por feitos reprováveis. Cativantes porque acredito que, respondendo à curiosidade que caracteriza qualquer ser humano face à esfera privada dos outros seres humanos, as biografias trazem mais leitores para a História.
Este pequeno artigo é o prólogo dos meus próximos artigos, que serão o desdobramento da biografia de D. Luís I, ainda que revista posteriormente, que eu desenvolvi em 1996. Já lá vão precisamente 10 ANOS.

quinta-feira, junho 29, 2006

Uma família de nada que tudo tinha...

> foto daqui.
Nada tinha a família do nada,
Por “de nada” se chamar,
Tinha muito mais do que aquela,
Que de tudo se quer gabar.

Tinha flores, pedras, luzes,
Mágoas, sufocos e cruzes,
Tinha amigos, passeios,
Abraços, de carícias cheios.

Eis que um dia,
A família “de nada”,
Se cruzou na rua, coitada,
Com a gabarolas, vadia.

Humilhada, ofendida,
Maltratada foi e será,
Por quem na sua vida,
Nada faz, nem fará.

Nada faz por bem,
Porque não quer trabalho,
Trabalhe quem não tem,
Notas de Euro em baralho.

Do trabalho,
Que outros suaram,
Penaram.

quarta-feira, junho 28, 2006

QUANDO A MORTE NÃO SIGNIFICA MÁ SORTE


Contrariamente aos arrepios e angústias que a carta/lâmina de Tarot representada inspira a quem consulta um tarólogo e esta se lhes depara, a mesma não auspicia a Morte, pelo menos a morte física a que imediatamente temos a tendência de a associar. O nome da carta não existia sequer nos primeiros baralhos de Tarot, sendo simplesmente designada como Arcano sem Nome. Trata-se da carta 13 do conjunto dos 22 arcanos superiores. Talvez seja por esta razão que o próprio número 13 é visto como um sinal de maus augúrios. A palavra Morte só terá aparecido associada à carta nos novos baralhos com tendências ocultistas da Tarologia.
Contrariamente a toda esta fama negativa, ela simboliza precisamente a mudança, a renovação, enfim, uma “morte” necessária para uma nova etapa da vida.
Didier Derlich explica-nos precisamente esta ideia nas seguintes palavras:

O seu simbolismo, um dos mais ricos do Tarot, exprime a omnipotência da vida. E a carta não contém nenhuma negatividade, desde que compreendamos a importância da mudança e da metamorfose, assim como o papel que elas desempenham nas nossas vidas. A mudança causa quase sempre medo. Sabemos o que perdemos, não sabemos o que ganhamos. Sabemos de onde vimos, não sabemos para onde vamos. (Didier Derlich, Guia Prático do Tarot, Pergaminho, p. 150)

Se pararmos para pensar todos os dias nos deparamos com a morte de alguma coisa, todos os dias experimentamos o fim de algo. É precisamente neste espírito que se enquadram as várias formas da morte, seja ela morte episódica, física ou espiritual. Todos os dias nos deitamos e acordamos para um novo dia cheio de possíveis novos desafios, todos os dias pensamos que o presente consumado pode dar lugar a algo que nos surpreende da melhor ou da pior maneira. Todos os dias terminamos coisas que jamais voltamos a empreender. Todos os dias sentimos esperança de mudar alguma coisa nas nossas vidas, ou seja, ansiamos sempre por alguma forma de “morte”.

Para parafrasear e ajudar(-me) a desfazer o irremediável medo que as pessoas têm da morte propriamente dita, não será de pensar que há tantos vivos que parecem mortos e há tantos mortos que permanecem vivos pelas maravilhosas obras que cá deixaram, ajudando à concretização de verdadeiras transformações na vida e na cultura dos seus tempos?!

Termino esta prelecção sobre a péssima tendência que as pessoas (e) eu têm(os) para, por vezes, negativizar(mos) a(s) vida(s) e a(s) morte(s) socorrendo-me de um pequeno texto que encontrei num livro sobre interpretação de sonhos, que vai de encontro ao que o meu primeiro citado deste artigo preconiza sobre uma carta que da morte simplesmente sugere um cadáver em decomposição.

Sonhar que estamos a morrer: quando sonhamos que somos nós que estamos mortos, trata-se de um sonho de muito bom agoiro, pois significa que vamos indeferir uma etapa não muito satisfatória da nossa vida para empreender outra que será mais alegre e benéfica. Esqueceremos recentes mágoas e dissabores, já que perante nós se abre um futuro cheio de êxitos e ganhos. (Grande Dicionário dos Sonhos, Girassol, p.240).
E viva a “morte”, a renovação, a coragem de mudar para melhor.

segunda-feira, junho 26, 2006

Maniqueísmos...

Em primeiro lugar, peço desculpa pela intermitência com que escrevo alguma coisa para este blog, embora por outro não tenha que pedir desculpa porque nele sou livre, ou não, porque esperam sempre que escreva alguma coisa. Mas também mais vale não escrever do que escrever por escrever, e umas vezes estou inspirado, outras nem por isso.
E já aqui vão vários opostos, que espero fazer de acordo com o título que arranjei para mais este artigo.
«Maniqueísmos» resulta de uma frase de Baltassare Castiglione que extraí do livro Lucrécia Borgia, biografia da autoria de Geneviève Chastenet, que me encontro a ler.
Rezava assim Baltassare Castiglione:
«A querer fazer desaparecer os vícios, fazemos desaparecer as virtudes».
Esta frase aplicada ao contexto do Renascimento Italiano em que no seio da própria Igreja o respeito pelos dogmas não era acompanhado pela tentação da carne, facilmente pode ser trazida para hoje, e aplicada desde que o Homem existe, revelando a propensão da Humanidade para aceitar tudo, para se completar com o que diríamos de bom e de mau, e sobretudo para valorizar umas coisas em detrimento de outras. Também só havendo contrapontos as coisas fazem sentido, porque só assim as podemos arrumar em categorias qualitativas, só assim podemos discernir entre aquilo que consideramos bonito-feio, grandioso-insignificante, saboroso-azedo, alegre-triste, carnal-espiritual, frontal-hipócrita.
O que seria do bem se não houvesse mal, do criterioso se não houvesse o negligente, do fantástico se não houvesse o factual?
De mim se não existisses tu? De ti, se não estivesse aqui?
De nós se não existissem eles?
Do futuro, se não houvesse um passado?
Da Lucrécia Bórgia, se não houvesse historiadores de tantas épocas que a afamaram e difamaram?
É no oposto que, acredito, muitas vezes nos encontramos a nós próprios, porque é nele que encontramos aquilo que não queremos ou não sabemos ser, mas também muitas vezes aquilo que não somos porque não temos coragem para dar o salto! Que não somos porque somos outra coisa que não aquela...

terça-feira, maio 30, 2006

NEVER SAY NEVER...




















Never Say Never,
If you are alone,
Or if anyone,
Wants to stay together.

Never say never,
If inside of you,
It's always and ever,
Missing a clue.

Never say never,
If you really know,
That I'm here forever,
To keep going with the show.

Never tell me,
"I don't like you",
Because i'm free,
It's true.

Don't lie to me,
Never is my request,
Because I can see,
That you are not the best.

quarta-feira, maio 24, 2006

SOBRANCERIA... DESILUSÃO...


Olhas os outros com desdém,
Esgares sobranceiros,
Não respeitas mais ninguém,
Só doutores e engenheiros.

Mesmo nestes, afinal,
Vês poder, influência, decisão,
Nas famílias "Teixeira e tal",
Encontras afirmação.

Jantares, festas,
Um restaurante ou bar,
Coisas que detestas,
No sossego do teu lar.

Amizade verdadeira,
Que te foi leal,
Enganas sorrateira,
Porque não te traz bem nem mal.

Oh sobranceria, desilusão!
Tamanha tu foste,
Pois então.

sábado, maio 13, 2006

MAR






















Ruge os teus lamentos,
Mar azul escuro,
Desfaz-te em tormentos,
Na esperança do futuro.

Outras vezes verdes,
São tuas águas amenas,
Por vezes cinza,
A lembrar minhas penas.

Também tuas ondas espumas,
Como se de raiva acometido,
Águas que costumas,
Trazer no sueste prometido.

Lavas mil almas,
Corações quebrados,
Pessoas calmas,
Heróis recordados.

Foste estradas,
Com mil faixas,
Levaste encravadas,
Nos porões mil caixas.

Trouxeste maravilhas,
Coisas novas de espantar,
Levaste a explorar,
Descobrir tantas milhas.

Recordas poetas,
Lusos zarolhos,
Da desgraça profetas,
De franzidos sobrolhos.

Velhos agoirentos,
Recolhidos na velhice,
Desocupados, sem portentos,
Esquecidos da meninice.

Dás a vida,
A quem dá a morte,
Oh sorte,
Desmentida.

domingo, maio 07, 2006

Dia da Mãe

Maria Antonieta e os filhos,
óleo de Elisabeth Louise Vigée-Le Brun.
Museu do Castelo, Versalhes.
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Optei por este óleo que representa a rainha de França Maria Antonieta com os seus filhos, não porque tenha alguma adoração pela rainha representada, mas porque se adequa bem ao dia que hoje se assinala no nosso país: o Dia da Mãe.
Com defeitos e qualidades como qualquer ser humano, as mães são sempre uma figura de referência pelos piores e melhores motivos nas nossas vidas. Dão-nos a vida, alimentam-nos, amparam-nos, repreendem-nos, muitas delas querem escolher os nossos futuros, muitas não estão para aí viradas.
Umas são matriarcas assumidas, outras submissas, umas demasiado presentes, outras ausentes. Umas felizes pelas escolhas dos filhos, outras felizes por conseguirem escolher as vidas deles, umas frustradas porque não o conseguiram, outras agradecidas porque eles se desenrascaram bem sozinhos, independemente dos rumos que tomaram.
Independentemente das suas condutas enquanto mães, elas são seres humanos, com fraquezas e forças incríveis. São mulheres que já foram crianças, que também são filhas, que querem seguir os modelos que elas próprias receberam ou que se afastam dos mesmos por razões diversas.
São capazes de inspirar em nós os mais controversos sentimentos, mas acima de tudo são, à maneira delas, "as nossas melhores amigas".
Para as mães de todos: Sejam felizes, não se anulem enquanto mulheres e não anulem enquanto mães.

E pronto... já cá cantam 32

de Tom of Finland, «Beach Boys» 1971, in The Comic Collection, n.º 2
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É engraçado como o clichet "estou a ficar velho" que os nossos próximos mais graúdos tanto apregoam em certa medida se aplica muito bem.
Ontem saí um bocadito até mais tarde e fui ver como paravam as modas para os lados de Albufeira e Vilamoura.
Se ficar velho significa não ter pachorra para estar uma data de tempo de pé a ver olhares gulosos a contemplarem a nossa casca e a casca dos nossos acompanhantes, então estou mesmo a ficar velho.Se for para ser mais justo, talvez seja melhor dizer "estou a crescer por dentro, e os meus interesses agora já não são os que tinha há algum tempo atrás" ou talvez ainda melhor "o que hoje pode parecer verdade, amanhã pode não o ser".

terça-feira, maio 02, 2006

MUNDOS...



Entre dois mundos,
Um olhar se espraia,
São Mundos fecundos,
Em que uma lágrima desmaia.

Um sorriso contido,
Rasgado, solto,
Da névoa revolto,
Sério, abatido.

Enquanto choras,
Tu e ele, eles e elas,
Que adoras.

Seguiram suas vidas,
Escolhidas,
Vidas vividas.

sábado, abril 22, 2006

Salpicos na tela...















> Cetáceos, acrílico sobre tela, 2002 (da minha autoria).

Mergulhei nesta tela,
Pensamentos coloridos de esperança.
Pintei baleias, golfinhos, orcas,
Mares de lembrança.

De tempos passados,
Presentes, futuros,
De livros desbravados,
Claros e escuros.

Quentes e frias cores,
Amizades, rancores,
Calores, atracções.

Livres corações,
Almas libertas,
Fantasias descobertas.

quinta-feira, abril 20, 2006

Rabiscos caseiros...


















> Díptico Sem título, da minha autoria.
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Para me entreter,
Rabisco numa tela,
Traços de prazer,
A pastel, não aguarela.

Sentimentos, cores, desejos,
Lembranças de tempos idos,
Acções, eventos, ensejos,
Da alma saídos.

Na cor se esbate o peso,
Da solidão, da alegria,
De mais um dia.

No branco, um beijo,
Um afago, um gracejo,
Da realidade.