segunda-feira, novembro 20, 2006

As palavras são enganadoras...


www.futsal0304.blogger.com.br

As palavras enganadoras proliferam infelizmente, porque cada vez mais são ditas sem sentimento, sem significado coincidente com a acção, ou no intuito de convencer determinado indivíduo pela fraude, a agarrar uma determinada causa.
Mais doloroso é não acreditarem nas nossas palavras quando elas são sentidas, quando reflectem o que realmente sentimos, e preferem cercear-nos, controlar-nos, castrar-nos os sentimentos, em nome de uma calma necessária para que as coisas possam correr bem.
Ainda mais dolorosas e enganadoras são quando nos encantam de forma grandiosa e sublime, encorajando-nos a continuar a acreditar nas boas intenções de alguns seres humanos, nas verdadeiras aspirações de carinho, de amor, de partilha, de actos de lealdade, de sinceridade e de coragem para serem e fazerem outros seres humanos felizes, quando depois nos apercebemos que tudo foi em vão.
Mais dolorosas ainda quando são omitidas, e não nos matam a sede de ouvir algumas delas, pela saudade, pela necessidade de conforto.
O ser humano está cada vez mais de costas voltadas para o seu próximo, cada vez mais se notabiliza pela mediocridade, e isso faz-me carregar um grande e cansado lamento interior.
Por isto tudo, mais uma vez me socorri de uma senhora da literatura mundial que escreveu:

Desde Adão até hoje, poucos bípedes têm havido merecedores do nome de homem.

(Marguerite Yourcenar, A Obra ao Negro, col. Mil Folhas, PUBLICO, 2002, p. 104).

Elas, as palavras, só são enganadoras se forem ditas em consciência plena de que o são. Mesmo que um dia possam ser deitadas por terra, no momento em que são ditas, muitas delas espelham de facto o que se passa no âmago de alguém.
Eu continuo a acreditar nas palavras… de algumas pessoas!

domingo, novembro 19, 2006

Surpresa abortada...



> Praia de Altura, tarde de 19 de Novembro de 2006.

Quando uma pessoa pensa que consegue mudar, tornar-se mais dura de coração e deixar de fazer “loucuras” dedicadas ao amor, eis que percebemos que não vale a pena deixar de o fazer, ainda que essas novas loucuras, revestidas do efeito surpresa, abortem por completo, mais e mais uma vez, e que depois de sentirmos a frustração e de nos olharmos ao espelho e nos chamarmos de “burros”, temos a sensação de que não deixaremos de o fazer, porque não é uma questão de burrice, é uma questão de esperança, de acreditar que vale a pena lutar por aquilo em que acreditamos, de acreditar que existem pessoas capazes de dizer “quero ser feliz, e para ser feliz preciso de fazer alguém feliz”, capazes de dizer “quero partilhar a minha vida com uma pessoa”, capazes de assumir que há pessoas que lhes querem bem e de não as esconderem dos pais ou das mães.
Não é uma questão de burrice, é uma questão de vontade de partilhar, de amar, de corajosamente enfrentar este mundo e o outro para ser feliz, doa a quem doer.

Num dia de Outono soalheiro, um amigo meu chamado Jorge, de 32 anos, levantou-se cheio de energia, com o coração a transbordar de paixão e de amor e pensou:
- Já que não vem ele até mim, porque não fazer-lhe uma surpresa?
Tratava-se de fazer mais de uma centena de quilómetros para visitar José, de 34 anos, independente, e o homem que preenchia o coração de Jorge.
Jorge enfiou-se no seu carro e meteu-se à estrada, com intenção de passar pelo Shopping de Faro para comprar uma lembrança a José, uma pequena lembrança mas que aos olhos de Jorge eram a cara de José.
Chegado junto à casa de José, em Altura, Jorge reparou que José não estava em casa e resolveu fazer uma chamada telefónica a José, avisando-o de que estava à sua porta. Jorge sabia que José devia estar a almoçar em casa da mãe, por isso resolveu, já cheio de fome ir a um snack-bar chamado Bela Praia, comer uma sandes mista e uma Pepsi.
Entretanto, enquanto esperava pelo parco almoço, Jorge insiste em ligar a José para o avisar que estava à sua espera, mas José continuava a não atender.
Foi aí que Jorge começou a pensar.
- Ele não me atende porque está com a mãe. Ele tem medo de falar comigo ao pé da mãe.
Mas continuou a afastar esse temor, por mais algum tempo, e lá comeu a sua sandes mista, bebeu a sua Pepsi e rematou com um café cheio, como sempre costuma beber.
Depois de pagar e de se dirigir para o carro voltou a ligar a José e mais uma vez não obteve resposta. Ainda assim, meteu as chaves na ignição e voltou à casa de José com uma ligeira esperança de encontrar o seu carro já estacionado naquela casa de sonho onde tudo tem um significado especial. Mas o carro de José ainda não estava e mais uma vez o telefone tenta avisar José da surpresa que, caso ele atendesse, passaria só a ser meia-surpresa. Mas urgia avisar José para afastar a possibilidade de o mesmo chegar na companhia da mãe.
É então que Jorge recebe uma mensagem sms de José a dizer: - Eu tou com a minha mãe. Fui buscá-la ao trabalho. Falamos mais tarde, ok?
Nesta situação Jorge sente necessidade de avisar José que estava junto da sua casa e responde-lhe com um sms: - Eu estou à tua porta.
Rapidamente vem a resposta de José, via sms, dizendo: - Mas eu tenho que ir a minha casa com a minha mãe. E agora? Que situação!.
Jorge, já ligeiramente abananado com a surpresa por ter descoberto que o independente José, pelo menos em relação à mãe não tinha independência nenhuma, responde, via sms: “Eu estou na praia, neste momento!”
Já na praia, andando contra o sol, Jorge recebe finalmente uma chamada de José. Este muito aflito e atrapalhado dizia: - mas tu não disseste nada!
Jorge replicou dizendo: - Eu tentei, mas tu nunca atendeste!
José respondeu: “Eu não posso estar contigo, estou com a minha mãe, vou às compras com ela e não a posso deixar sozinha”.
Jorge ainda pediu a José para vir ter com ele só um bocado, para receber a prenda que tinha sido comprada para ele com muito carinho.
José voltou a dizer que não podia, que logo Jorge lha daria noutro dia.
Decididamente, Jorge tem que estar triste, porque nem que fosse por cinco minutos, gostava de ter olhado para a cara de José e de lhe ter dito o quanto gostava dele, o quanto pensava nele e o quanto tinha sido importante para si comprar-lhe aquela lembrança.

terça-feira, novembro 07, 2006

Fase Pictórica...




> ABC, Girassóis, acrílico sobre tela, 5 de Novembro de 2006.

Ando um bocado afoito às escritas, porque tenho andado voltado para a pintura, para os rabiscos caseiros com que vou decorando a minha casa.
Goste-se ou não, são meus, do meu suor, e sempre dão um toque pessoal à minha casa.
Da fase floral, por agora suspensa, eis aqui a minha última obra-prima... lol

quinta-feira, outubro 12, 2006

Beleza, o que é?


> imagem de http://www.stampede-entertainment.com

Era uma vez um humano lindo que vivia sozinho porque não conseguia, de momento, viver com mais ninguém, obrigando-se a aprender a saber estar por sua conta.
Era outro mais lindo ainda que vivia infeliz porque pensava que estava sozinho no mundo, e isto porque ninguém o desafiava, sequer, para tomar uma cerveja no café do bairro.
Outro belíssimo que passava os dias entretido nas suas coisas para esquecer a solidão que lhe rondava o espírito, mas que dificilmente o conseguia abater, porque ele estava já calejado.
Um que tinha tudo, uma carreira brilhante, amigos lindos como ele, francos, leais e ternos, que vivia desesperado porque pensava que o amor verdadeiro não era para ele.
Outro sex-symbol que se anulava todos os dias, mais e mais, porque com tanta carência, servia de objecto sexual e, depois de satisfeito o prazer da carne, mergulhava numa intensa auto-comiseração.
Um ainda, cheio de charme, que por querer ser aceite socialmente resolveu fazer família mergulhando num ciclo vicioso de hipocrisia e sofrimento.
Outro, inteligente, ex-engatatão, que no meio de tanta alegria casou, procriou e se apagou nas malhas do convencional.
Outro mega-resistente que trabalhava, trabalhava, trabalhava, porque via no trabalho a fonte do esquecimento das suas fraquezas.
Um dandy que se pavoneava e humilhava os outros porque não conseguia sequer olhar para si próprio.

Sonhava por fim, um extraterrestre horrendo, com um mundo onde a partilha, o convívio, a brincadeira colectiva, o amor, o respeito, a coragem, a diferença, o equilíbrio e a humildade seriam os valores da Humanidade.

sábado, outubro 07, 2006

Grita Liberdade



> imagem do site http://prisonersoverseas.com/wp-content/SLAVERY.jpg

Há bem pouco tempo senti-me estranhamente livre e agradavelmente diferente de uma série de pessoas, que estimo não porque tenham muito a ver com a minha maneira de ser, mas porque no passado foram importantes para mim, para o meu crescimento, porque contribuiram para fazer de mim aquilo que eu sou e para descobrir que jamais poderia ser como elas eram, quase que humanos clonados que agem e pensam como se lhes tivesse sido inscrito no âmago um guião de comportamentos, e na pele um guarda-roupa uniforme. Mas o melhor de tudo, é que na mesma ocasião, descobri que havia alguns desses meus amigos que pensaram e se sentiram como eu.

Por tudo isto, e por assentar que nem uma luva, mais uma vez encontrei uma frase nas Memórias de Adriano, da Marguerite Yourcenar, que passo a transcrever:

Prefiro ainda a nossa escravidão de facto a esta servidão do espírito ou da imaginação.
(Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, Ulisseia, 2005, p. 93).

(Re)nascimento


> Leonardo da Vinci, Study of a Womb, c. 1489, in http://www.visi.com/~reuteler/vinci/womb.jpg

O verdadeiro lugar do nascimento é aquele em que, pela primeira vez, se lança um olhar inteligente sobre si mesmo.
(Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano, Ulisseia, 2005, p. 34)
Esta frase suscitou a minha atenção e fez-me esboçar um sorriso, porque posso dizer que (re)nasci, aqui, onde vivo, sozinho. Aqui, onde pela primeira vez aprendi a olhar de frente a mim mesmo, onde sem desviar a atenção de mim próprio, me vou conhecendo, desvendando e amando.

segunda-feira, setembro 18, 2006

Outro sem inspiração...


Alguns bloguistas amigos que me perdoem, mas não posso deixar de fazer este post um tanto ou quanto plagiado.
Mas o problema é mesmo esse, falta-me também inspiração.
Será algum novo síndroma da inspiração defeituosa adquirida?

terça-feira, agosto 29, 2006

O mérito não é hereditário...


imagem do site www.eca.usp.br/.../njr/voxscientiae/edith31.html

- É verdade que, nas ordenações de Março, pretendeis instalar Nicéforo como bispo de Trevi?
- É.
- O homem é um grego! – Protestou Daniel.
- E isso que interessa?
- Uma posição tão importante tem de ser para um romano.
Joana suspirou. Era verdade que os seus predecessores tinham utilizado o episcopado como instrumento político, distribuindo bispados entre as famílias romanas, como tesouros escolhidos. Joana discordava com esta prática porque tinha resultado numa grande quantidade de episcopi agraphici – bispos iletrados, que tinham espalhado todo o tipo de ignorância e superstições. Afinal, como é que um bispo podia interpretar correctamente a palavra de Deus para o seu rebanho, se nem sequer era capaz de a ler?
- Uma posição tão importante – respondeu ela, calmamente – deve ser para a pessoa mais qualificada. Nicéforo é um homem culto e piedoso, será um óptimo bispo.
- É natural que assim penseis, uma vez que sois estrangeiro.
Daniel utilizou deliberadamente o termo barbarus, e não o termo peregrinus, mais neutro.
Os outros ficaram manifestamente incomodados.
Joana fitou Daniel directamente nos olhos.
- Isto não tem nada que ver com Nicéforo – replicou ela. – Sois guiados por motivos egoístas, Daniel, pois quereis que o vosso próprio filho, Pedro, seja bispo.
- E por que não? – indagou Daniel, num tom defensivo. – Pedro é mais adequado para o lugar em virtude da família e do nascimento.
- Mas não por capacidade – ripostou Joana num tom seco.


Donna Woolfolk Cross, A Papisa Joana, Editorial Presença, Lisboa, 2000, p. 416

Ultimamente tenho conhecido pessoas que vivem agarradas à ilusão de que valem muito por serem de determinada cor política, por conhecerem uma mão cheia de pessoas influentes devido à cor do dinheiro e, alegadamente, à tradição familiar do berço de oiro.
De facto essas pessoas safam-se muito bem, e vivem bem porque conseguem de forma imediata abraçar a materialidade que as estimula para saírem do vazio que encontram em casa, nas suas vidas.
E o mérito senhores, onde fica o mérito? Será que o mérito é das pessoas que por serem filhas de A ou de B, por serem amigas de X ou de Y, conseguiram uma boa posição profissional e reconhecimento em determinada actividade?
Não será o mérito antes o fruto do trabalho, dedicação, esforço por atingirmos, por nós próprios, um lugar ao sol?
O problema é que este mérito não interessa nada, muitas vezes…E o sol continua a brilhar sobretudo para os Pedros e os Danieis a que o excerto da Papisa Joana faz alusão.

domingo, agosto 27, 2006

Felicidades Relativas


> imagem do site http://www.rejesus.co.uk/spirituality/happiness/25smiles.jpg

Será que ele iria ser feliz? Joana esperava que sim. Mas parecia ser um homem fadado para desejar sempre aquilo que não podia ter, para escolher para si próprio o caminho mais pedregoso e mais difícil. Ela iria rezar por ele, assim como por todas as outras almas tristes e atribuladas que tinham de percorrer sozinhas o caminho das suas vidas.

in Donna Woolfolk Cross, A Papisa Joana, Editorial Presença, Lisboa, 2000, p. 217.

Às vezes eu próprio penso que sou propenso a esperar demais da vida. Mas também já vou aprendendo a ser mais conformista.
Às vezes penso que a vida é injusta para mim, mas quando penso que há tanta gente que passa fome no mundo… tanta gente pobre de espírito, tanta gente que tem dinheiro mas que não tem como gastá-lo ou que tem tantos amigos por conveniência, tanta gente casada mas que vive uma mentira… tanta gente infeliz pelas mais variadas coisas… esboço um sorriso de agradecimento.
Penso também que a insatisfação é muitas vezes um processo pelo qual todos passamos, e com o crescimento interior se vai esbatendo ou pelo menos racionalizando.
Algumas vezes a insatisfação é positiva, sobretudo se for sinónimo de ambição, de vontade de ser sempre melhor, de conseguir atingir objectivos que se prendem com a nossa felicidade, sem no entanto esbarrar com a felicidade de terceiros.
A minha felicidade passa por estar bem comigo mesmo, se passa por um dia descobrir uma pessoa que partilhe uma existência comigo, isso já não sei…O que vier virá! E que venha por bem!

domingo, agosto 06, 2006

Vazios necessários...


> Meditation on Emptiness, by Brigid Marlin, Miche Technique, in www.brigidmarlin.com

É "engraçado" como a aparência da plenitude muitas vezes nos encobre a necessidade que temos de sentir na pele a dor, o luto, a solidão, o vazio, a vontade de nos encontrarmos a nós mesmos e, finalmente, a disponibilidade para nos deixarmos sentir verdadeiramente plenos…

terça-feira, agosto 01, 2006

Onde é que pára a Polícia?



> imagem do site http://www.gms.lu/~riesm/portug2.jpg, adaptada por mim

Onde é que pára a Polícia?

Ainda agora começou Agosto e, depois de sair do meu trabalho, de me enfiar no carro para regressar a casa e atravessar a “semaforizada” Avenida dos Descobrimentos, já assisti a tanta contra-ordenação no tráfego que perguntei, deveras irritado, “ONDE É QUE PÁRA A POLÍCIA?”.

Onde, podem dizer-me onde?

quarta-feira, julho 26, 2006

Futuro do Amor


> Bonneville Savoy, de William Turner, retirado do site www.geocities.com/uttamkumar44/turner.html

Um beijo roubado,
Um olhar sorridente,
Um abraço apertado,
Uma mão assente,
Em tuas pernas,
Morenas, escuras,
Trementes,
Maduras.

Enlaço tuas mãos,
Contigo em meus braços,
Adivinho teus traços,
De anos passados,
Apáticos, cinzentos,
De vida adiada,
Alugada,
Em espaventos.

Roubei-te sorrisos,
Olhares de atenção,
Perdi-me em juízos,
Com frustração,
Julguei-te perdido,
Nas malhas do mundo,
Do mundo fecundo,
Em interesse crescido.

Com força lutei,
Estóico aguentei,
Com ciúmes alimentados,
Me enchi de cuidados,
Reagi com pecados,
Sonhados, vividos,
Empedernidos,
De mágoa contida,
Por vezes sonora,
De ave canora.

Aflita de dor,
Minh’alma voou,
Em ti pousou,
Para viver,
De novo aprender,
A amar,
Cultivando devagar,
O que não consegui,
Anteriormente,
Alcançar.

Começar de novo,
Com calma, sereno,
Sem doce veneno,
Namorando,
Saboreando momentos,
Únicos, sem tormentos,
Sem pressas,
Sem cobranças minhas,
Tuas e deles.

Sobretudo deles,
Que não deixavam,
Apartar-nos para sentir,
Para repartir momentos,
De dois,
Não de três,
Ou quatro,
De uma vez.

Viver para mim,
Preciso viver para mim,
Saber chorar sozinho,
Rir e resmungar,
Sem audiências,
Falhar sem condolências,
Para me encontrar,
Para te encontrar,
E saber desejar.

Amar cada bocado,
Que esteja a teu lado,
Sem me massacrar,
Por ter terminado,
Sem sofrer antes,
Do momento em que partes.
Sem ansiar dolorosamente,
O teu regresso,
É isto que peço.

quinta-feira, julho 20, 2006

THE END...


> Road to nowhere, foto de Willie Holdman, tirada do site www.willieholdman.com

Há dias em que temos muita necessidade de soltar cá para fora alguns sentimentos e escrevê-los no papel, mas normalmente esses dias, não aqueles em que escrevemos porque queremos, mas sim em que escrevemos porque precisamos, são também aqueles em que por muitas e variadas razões nos socorremos das coisas mais banais porque não temos muita energia intelectual para escrever o que é da nossa própria pena.

Eu socorri-me de versos da canção da cantora branca com voz de preta (sem qualquer sentido pejorativo, porque a adoro e porque os pretos são excelentes como os brancos e péssimos como eles) que anda nas bocas do mundo e nos entra, em qualquer parte, pela vida adentro. Falo da Anastacia e da primeira música que a lançou para a ribalta. O refrão é da música I’m Outta Love, e diz isto:

I’m outta love set me free
And let me out this misery
Show me the way
To get my life again
Cuz you can’t handle me
Said I’m outta love can’t you see
Baby that you gotta set me free
I’m outta love


Nem sei ao certo se é o refrão adequado relativamente ao que estou a sentir neste momento, mas pelo menos é alguma coisa parecida, mais não seja pelo facto de ter tomado uma posição corajosa, independentemente de ter ou não sido fácil de tomar ou a certa. Mas acho que sim.
Nem sei ao certo o que estou a sentir. Talvez alívio, talvez medo, ao certo eu sei que estou em paz, com a consciência tranquila porque ninguém foi enganado, porque ninguém fez mais, simplesmente porque não podia, simplesmente porque não mandamos nos nossos sentimentos, nas nossas emoções…

terça-feira, julho 18, 2006

NO HORIZONTE...


> Diáfano Horizonte, foto de Cristina Corradini, in www.chaco.gov.ar/cultura/medios

No horizonte vislumbro desejos,
De um porvir melodioso,
Em que te cubro de beijos,
Num abraço caloroso.

De ternura se enche,
A esperança de escaparmos,
Preenchida,
Na lembrança de ficarmos,
Lado a lado,
Num conforto almejado,
Em que tu aninhas,
Teu rosto em meu peito,
Naquele jeito,
Que adivinhas.

Por estares a mim ligado,
De um modo superior,
A dormir e acordado,
No recanto do fulgor,
Do risco que se abate,
No pecado infantil,
No eterno debate,
De traição varonil.

Ao norte meu olhar,
Se eleva para Ti,
Meu ser a acalentar,
Esse corpo etéreo,
Que por si,
Quebra mistério,
Que por mim,
É beijado,
Que por mim,
Em pecado,
É amado,
Olhado.
Apalpado.
Enlaçado.

Dos regulares amantes,
Não sei que será,
Se de um beijo antes,
Não passará,
Um beijo imaterial,
Feito por intenções,
Ou se de um amor carnal,
Lavrado em acções.
O que vier virá,
Nos meandros do futuro,
Que palavras não há,
Para dizer que te juro,
Estar sempre aqui,
Ou ir para longe.

Não interessa o que vem,
Ou se te aproxima,
Viver cada dia,
Na doce chacina,
De palavras amáveis,
Com que me cobres,
Me descobres,
É meu lema,
Este tema,
De amor.

quinta-feira, julho 13, 2006

Marégrafos


> Foto de Pedro Calheiros, retirada do site www.trekearth.com

Águas revoltas,
Marégrafos atentos,
Niveladas, envoltas,
Em tantos tormentos,
Subindo, descendo,
Pela terra que gravita,
Ao sol e à lua,
Meu ser que medita,
Minha pele nua.

Roçando n’areia,
Vendo silhuetas,
Corpos de sereia,
São estatuetas.
Cheias de ilusão,
Perdidas em buscas,
E em tentação,
Que tu me ofuscas.

Sorriso gentil,
Palavras meigas,
Calor febril,
Enchendo taleigas,
De suor ácido,
Tesão pueril,
Num corpo já flácido,
Já não juvenil.

Dos jovens amantes,
Que mergulham,
Corpos flutuantes,
Se atulham,
De beijos molhados,
Em risos rasgados,
De fortes abraços,
Que borbulham.

Águas oscilantes,
Que marégrafos medem,
Agora como antes,
Em que amores sucedem.
E vós oceanos,
Em brumas envoltos,
Lavam desenganos,
E castigos soltos.

quarta-feira, julho 12, 2006

Liberta... de ti!


> Foto retirada do site www.beachchamber.com

Liberta de ti se afasta,
Minh’alma que voa mais longe,
Nas asas de desejo de um monge,
Como se fora casta.

Não estou aqui, já,
Fui para parte incerta,
Alma aberta,
Contra medos que vá,

Buscar um rosto,
Uma pele, um abraço,
O calor noutro regaço,
Um aroma de mosto.

De vinho que te bebo,
Meu belo e jovem efebo,
Que roubaste minh’alma,
Com muita, muita calma.

Ao outro que a tinha,
Não serei bom,
Tão pouco será minha,
A ira da voz, naquele tom.

Alto, frustrado, desgostoso,
Cheio de raiva, rancoroso,
Que grita de forma louca,
“Desdita não tenho pouca”.

Perdi-te, que faço,
Não vás embora,
Puxo-te o braço,
Minh’alma chora.

Dois culpados somos,
Um só, não é verdade,
Porque ambos fomos,
A bestialidade.

Na cobrança de passados,
Pelos ciúmes sentidos,
Fomos separados,
Antes de ser unidos.

História triste e vã,
Apressada por carências,
De uma manhã,
De anos de ausências.

Em que corações,
Disponíveis tentações,
Riam de mim,
Lágrimas enfim.

Rolando de olhos tristes,
Pesam-me o semblante,
Porque já não existes,
Foste avante.

Nas asas da sorte,
Ícaro alado,
Fugindo da vida, da morte,
Do chão levantado.

terça-feira, julho 11, 2006

Ilhas de Amor


> Kapiti Island Sunset, Photo of Steven Pinker, http://pinker.wjh.harvard.edu

Na jangada da paixão,
Cheguei a uma ilha,
Na última recordação,
De uma milha.
Daquele amor,
Em que rancor,
E saudade,
Originam amizade.

Que floriu,
Onde amor havia
Que resistiu,
Quando tudo morria.

Minha alma sumiu
Raptada por alguém,
Não sei quem,
Não resistiu,
Em desvario,
Embarcou,
Naquele navio,
Que ma levou.

Para novo destino,
Belo, diferente,
Onde do desatino,
Não negligente.

Amor se ergue,
Pungente,
Fremente,
Do icebergue,
Alto que gelou,
Meu coração,
Com tensão,
Desilusão apagou.

Acesa novamente,
A chama da paixão,
Ah quente,
Quente sensação.

De abrir o coração,
Não ter medo,
Ao destino sensaborão,
Nunca cedo,
Não tenho receio,
Do que virá,
Porque na mesma irá,
Acender o seu esteio.

segunda-feira, julho 10, 2006

NAS TUAS MÃOS


> Foto daqui

Nas tuas mãos deposito a fé,
Que outrora me tiraram,
Não sei se é, ou não é,
Aquilo que encontraram.

No rio espraiado,
Meu sentir,
Meu devir,
Meu amado.

Meu cuidado,
Que procuro,
Encantado,
No futuro.

Desejo ver,
Sentir o teu calor,
Sentir os teus lábios,
Aquele tremor.

Dos amantes,
Arrebatados,
Em abraços flagrantes,
Apaixonados.

Amorosos,
Faladores,
Nervosos,
Ansiosos.

Doces culpados,
Olhares cúmplices,
Na penumbra ocultados,
De caminhos dúplices.

Meu encanto,
Desencantado,
Me encontro,
Desesperado.

Por não ser,
Dono de mim,
De ti, enfim,
Do meu coração.

Pois sim,
Na tua mão,
Esta devoção.

(Poema dedicado a todos os desencantados que têm medo de se encantar, mas que precisam disso para ser felizes. Aqui vai uma palavra de esperança).





domingo, julho 09, 2006

VIVER...



> Foto daqui

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Há dias em que nos sentimos plenos,
Só por ouvir o barulho do mar,
Por ver a luz da lua,
Abraçar o ar,
Que nos refresca o corpo,
Sabendo que somos amados,
Sabendo que amamos,
Sabendo que estamos vivos,
Que temos um futuro,
Não interessa qual,
Porque o que interessa,
É cada momento vivido,
O presente absorvente,
Que nos distrai do passado,
Que nos inibe a insegurança,
Face ao que está para vir,
Simplesmente viver, viver, viver…

sexta-feira, julho 07, 2006

D. Luís I - Subsídios para uma (re)leitura biográfica 2



> Imagem daqui, aludindo à marcha das mulheres de Paris sobre Versalhes, onde Maria Antonieta, a culpada de todos os males de Franca, residia com a sua família.

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O Século de D. Luís

O século XIX pode ser considerado, entre outros aspectos, como o século do Liberalismo e da burguesia triunfante.

Do Liberalismo porque a partir da Revolução Francesa (1789), se vão espalhando pela Europa novos ideais de liberdade, igualdade e fraternidade. Ideais que não foram os de uma população inteira, mas sim de uma camada social, que tendia a afirmar-se perante a cada vez maior pauperização das camadas baixas da população. Estou a referir-me à burguesia de grandes comerciantes, banqueiros e industriais[i], que nos países mais desenvolvidos detinham os meios de produção, perante os operários assalariados que, face a um grande aumento demográfico vêem as suas condições de vida piorar[ii].

Em Portugal, que só experimentaria um desenvolvimento a partir de meados do século XIX, a situação era bem diferente, pois havendo uma burguesia, esta iria ocupar o lugar da nobreza terratenente, quer laica, quer religiosa, que se viu gradualmente desapropriada das suas terras devido à desamortização, “processo legislativo complexo, que se traduziu no desmantelamento de corporações e de estabelecimentos religiosos e laicos e na incorporação dos seus bens na Fazenda Nacional, nalguns casos, e, em todos, na transferência, em seguida, para o domínio privado, por meio de venda ou remição em hasta pública, dos bens imóveis considerados de mão morta”[iii]. Essa venda dos bens nacionais intensificou-se sobretudo a partir da vitória definitiva, em 1834, do Liberalismo em Portugal, posteriormente questionado pelas teses socialistas e republicanas.

Da burguesia triunfante devido à sua aptidão para o trabalho, nos países em franco desenvolvimento. Ao invés, a nossa burguesia tornou-se, com o tempo, tão ociosa como a nobreza fundiária, era uma nova aristocracia, comprando as terras por ninharias, com sua pouca vocação para o investimento. Esta vai gerar uma burguesia de gabinete, de bacharéis, formados na universidade, com vista ao funcionalismo público, emprego seguro para pessoas que não gostam de arriscar investindo. Antagonicamente, existia toda uma população analfabeta, de pequenos agricultores, frades e artesãos, que, sendo considerados, segundo as novas noções liberais, cidadãos políticos passivos, não votavam pois não podiam pagar. Estava-se num liberalismo, reconhecidamente censitário, a nível europeu, e camuflado ao nível do nosso país, devido à radical, inovadora e efémera Constituição de 1822, que não refutava mas também não consagrava aquele princípio. Por falar em constituição, é de referir que este foi o grande século do constitucionalismo, das legislações feitas em prol de toda a população de um país, reduzindo os poderes dos monarcas, que de delegados de Deus, portanto, acima da lei, passam a governar mediante a lei – e que monarca exemplar foi D. Luís, como respeitador da Constituição Política da Nação Portuguesa[iv]­.

A nossa história constitucional, durante o século de Oitocentos, é bastante rica, e preencheu e deu vida à primeira metade daquele. Em 1822 surgiu, num palco em que se movimentavam elites revolucionárias e contra-revolucionárias, a Constituição de 1822, texto radical promulgado pelo Soberano Congresso Constituinte. Este texto dificilmente se poderia impor num país com forte tradição paternalista monárquica, aliada à grande influência da religião católica. Contudo, não era com um texto que a situação de pobreza de um país devastado pelas invasões napoleónicas e pela tutoria dos aliados ingleses se resolveria. De qualquer modo este impôs-se, sendo jurado por D. João VI, e detestado por D. Carlota Joaquina e D. Miguel, símbolos do absolutismo monárquico português, insatisfeitos com o poder de veto meramente suspensivo, para além do poder simbólico. Mais tarde, em 1826, ano da morte do rei D. João VI, D. Pedro IV, abdicando em nome de sua filha D. Maria da Glória, vai, de forma contemporizadora, outorgar aos portugueses a Carta Constitucional de 1826, numa tentativa de equilibrar a soberania da nação com os poderes do rei, que aumentam até ao nível do veto absoluto, estando reconstituídos parte dos poderes efectivos da realeza, que detendo o poder moderador, estava protegida por uma câmara alta de pares do reino, nomeados pelo rei, para evitar imposições desagradáveis da outra câmara, a dos deputados eleitos.

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[i] Dreyfus, François, O Tempo das Revoluções 1787-1870, Publ. Dom Quixote, Lisboa, 1981, p. 204: “Face a estas classes tradicionais, nasce da revolução económica uma nova classe ligada à poupança, à industrialização, ao desenvolvimento do crédito e ao progresso da instrução. Porque a Revolução Industrial é ainda, no século XIX, o feito de países onde domina o protestantismo”.
[ii] Idem., p. 206: “O êxodo rural e o desenvolvimento da indústria conduzem à formação de um proletariado industrial. A sua condição de vida é miserável. São obrigados a uma jornada de trabalho de catorze a dezasseis horas”; p. 211: “E a esta sujeição do operário vem juntar-se uma vida material muito dificil. Os salários continuam muito baixos até cerca de 1850”.
[iii] Silva, António Martins da, “O Fenómeno Desamortizador e sua Inserção Histórica”, in História de Portugal, dir. de José Mattoso, Círculo de Leitores, 1993, vol. 5, p. 339.
[iv] “O Rei D. Luís e a Sociedade de Geografia de Lisboa”, in. Boletim da Sociedade de Geografia de Lisboa, red. e admin. na S. G. L., Lisboa, série 80.ª, n.ºs 7-12, p. 157: “Como Rei, foi liberal, como homem foi bom”.